A Flexibilidade Mental versus o Sectarismo Cognitivo.

O sectarismo pode ser definido de diversas maneiras conforme a área das ciências humanas, seja na política, sociologia ou mesmo na psicologia. É um termo originário  de estudos sobre grupos religiosos, seitas, comunidades fechadas e alternativas.

O fanatismo religioso, bem como o fanatismo político, por exemplo, impõe discursos de juízo de valor, com excessiva atenção focalizada em um único ponto de vista de um determinado líder ou auto-herói solitário (Por ex.: Unabomber) que tem por premissa se impor majoritariamente sobre outras visões.

Há um culto totalizante sobre a imagem de um determinado líder, o modelo máximo, como se ele fosse o único e absoluto portal da sabedoria humana, cuja sua atuação depende exclusivamente de uma plateia, formada por um grupo de subordinados co-dependentes psicologicamente, numa relação hierárquica extremada e polarizada de poder (um pode tudo, outros podem nada), com a qual geram juntos nesta díade patológica um ambiente de espelhamento, instigando cobiça, inveja, conspiração, criticismo exagerado, e logo, baixa empatia, o que evidencia a baixa frequência de momentos de confraternização real.

Há uma velada disputa sobre postos de poder, da qual se espelham no líder almejando estar em seu lugar ou o mais próximo possível de sua atenção. Então, com o tempo, a comunicação fica truncada, pouco espontânea, pois vigiados, criticados, comparados e julgados, instaura-se um clima conspiratório, de desconfianças mútuas, ao mesmo tempo: autovitimizante como forma de submissão dissimulada. As palavras e discursos não se alinham com as condutas. Há sempre uma justificativa para o líder “poder tudo” e os liderados “poderem nada”.

A distorção cognitiva mais comum é a dicotomia, em que o modo de ver se resume a duas realidades extremas e opostas: tudo ou nada, bom ou mal, pura ou devassa, correto ou ladrão, vida ou morte, trabalho ou vadiagem. Enfim, a forma de interpretar o mundo passa a ser muito restritiva.

O clima se parece com uma sala de espelhos que com o tempo mais vale “parecer” do que “ser”. Quem se parece demais com o líder é criticado pelos pares subordinados, por “querer aparecer”, ao passo que, os que ousam se  destoar, se diferenciando muito do padrão instituído como ideal em um determinado sistema fechado, são estigmatizados. Com o tempo, uma palavra, um gesto e até mesmo um silêncio pode dar margem para uma represália. O ambiente monárquico francês era assim: uma rede de intrigas. Do mesmo modo, a luta por poder simbólico em um grupo religioso com grande influência política.

A imitação é um recurso que o cérebro tem devido aos neurônios-espelho. É assim que aprendemos a aprender: imitando nossos cuidadores. Imitar é de certa forma, um modo sutil de elogiar. Contudo, quando a imitação se torna um biombo que omite a própria personalidade, que é única, há algo errado. Se a imitação ou o modelo proposto for um só, sendo a única e exclusiva condição para alguém ser aceito em um grupo – tendo como consequência o rompimento com seus demais vínculos, sobretudo os familiares, ou amigos, ou o mundo externo – então, há sectarismo. Há uma necessidade muito grande por parte dos séquitos de mimetizarem o comportamento, a forma de se vestir, de falar, de agir, de pensar em excesso um determinado líder. Outros, se satisfazem contrariando ou, ao menos, tentando. Isso pode ser explícito ou implícito.

De maneira geral, o sectarismo se resume a um único modo de ver a realidade, marcado pelo exagero no apego a um determinado ponto de vista, que ao extremo, torna a pessoa predominantemente excludente, intransigente e  intolerante a qualquer ameaça que abale seu sistema de crenças absolutas.

Somos uma espécie social; logo, a interação entre nossas ações e as ações das outras pessoas são interdependentes. E boa parte das interações socais pautam-se na forma como os seres humanos se comunicam. A comunicação mais fluida e leve depende da flexibilidade cognitiva, ou seja, do modo de ver de cada pessoa.

Há um determinado sectarismo cognitivo predominante, quando o discurso extensamente repetido, sendo sempre o mesmo, servindo como lente totalizante de uma realidade hipotética.

Por outro lado, quando a liderança é mais flexível, se permite a diversidade, por ser mais aberta à novidade, logo, a característica é a neofilia. Do contrário, quando é inflexível, é comum a comunicação ser demarcada por um hipercriticismo velado (mental) até a enxurrada de críticas em público, levando a pessoa criticada até a uma situação vexaminosa.

O sectarismo é uma micro visão monolítica, caracterizada por uma forma extremamente rígida de pensar, sendo pouco ou em nada flexível. Por isso, há uma incapacidade de se colocar no lugar dos outros, sendo quase impossível haver uma relação de reciprocidade.

Para piorar, a razoabilidade, qualidade de ser razoável, se dilui numa extrema postura mental de defesa vigilante das crenças rígidas, havendo distorções cognitivas conforme as conveniências das circunstâncias.

Logo, pessoas com pensamentos rígidos são menos sociáveis, dispõem de menor repertório de recursos de comunicação interpessoal, são pouco assertivas, sendo “refratárias”, ou seja, impermeáveis à possibilidade de mudança, sendo neofobas, ou seja: aversivas às novidades.

Há doenças mentais que se caracterizam por esta extrema rigidez mental e comportamental, como por exemplo, o Transtorno de Personalidade Obsessivo-Compulsivo e o Transtorno de Personalidade Narcisista. Temos um grande exemplo na política internacional. O excesso de autograndiosidade, em detrimento de um segmento social, sendo esta a condição para se sentir superior. Por isso, excludente e irascível.

Na vida, é preciso haver um equilíbrio entre a estabilidade e a abertura para o novo.

No meio corporativo, por exemplo, o padrão de comportamento disfuncional denominado por workaholic, ou viciado em trabalho, é marcado por um sectarismo na forma de realizar o trabalho de modo obsessivo, sem pausas, levando até a equipe inteira ao adoecimento por exaustão emocional, físico e de recursos financeiros. Então pessoas que “vivem somente para o trabalho” são sectárias porque para elas “não há vida fora do ambiente corporativo”, quando na realidade, é a vida social maior, como a família e amigos, que complementam a qualidade de vida, dando sentido ao trabalho. Mas para tanto, é preciso haver tempo e disponibilidade mental e emocional para que possa fluir. E se houver um mesmo padrão, a vida pessoal com o tempo se enrijece. Ninguém quer se casar com o trabalho. Imagine o que significa a aposentadoria de uma pessoa viciada em trabalho? Ela se torna uma estranha no próprio ninho. Qual é o sentido de trabalhar tanto se não há tempo, nem ânimo, para usufruir dos momentos familiares? Pela própria dinâmica são bem diferentes dos momentos vivenciados com os colegas de uma corporação, que, por melhor que seja o turno laboral, o lugar do trabalho é o lugar do trabalho. O mesmo vale para o ambiente doméstico, um lugar demarcado pela informalidade, pela afetividade mais fluida, pelo espontaneísmo e maior tolerância às irregularidades.

Outro extremo é a pessoa que não se dedica a trabalho nenhum, não se submete a nenhuma rotina, vive sem metas, sem planos de realização profissional. O meio-termo é o mais saudável, descobrindo e mantendo um ponto de equilíbrio entre a vida pessoal, familiar, profissional e comunitária.

Fonte: por Graça Razera para CollBusiness News, em 17.09.2018

Referência de Leitura:
“Comunicação Não-Violenta”, de Marshall B. Rosemberg.
“A Arte de Ser Flexível”, de Walter Riso.
“A Coragem de Ser Imperfeito”, de Brené Brown.

2018-09-17T09:13:39-03:0017/09/2018|Capital Humano|Nenhum Comentário
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