As 12 economias de risco do mundo – Risco Alto, médio e moderado

O primeiro é o endividamento galopante, que tem aquecido o debate entre economistas e políticos, e a segunda é o custo provocado pelos fenómenos extremos climáticos, que ultimamente tem merecido atenção crescente.

Para chegar àquele grupo tão diverso em termos de riqueza e de geografia, o Expresso usou sete critérios, seis dos quais relacionados com as diversas dimensões da dívida, implicando riscos de incumprimento de países, cambiais e financeiros, e introduziu o risco climático global da organização Germanwatch.

Quando se fala de dívida não é apenas a respeitante ao Estado. Abrange também os restantes sectores, famílias, empresas e sector financeiro.

O resultado é um lote de 12 pontos vermelhos no planeta com risco muito alto. A boa notícia é que Portugal não está nesse ‘clube’, nem mesmo no grupo seguinte de risco alto (colorido a laranja) com 13 economias. Mas surge no terceiro grupo (colorido a amarelo) de 10 economias com risco moderado, na companhia, por exemplo, da Bélgica, da França e da China.

Nos pontos vermelhos, a bancarrota ameaça quatro economias emergentes Argentina, Paquistão, Venezuela e Ucrânia. Um endividamento mais de quatro vezes superior à riqueza do país marca alguns centros financeiros: Holanda, Hong Kong, Singapura e Suíça e o reino da Pequena Sereia da Dinamarca.

O risco climático já ceifou desde 1998 mais de meio milhão de pessoas e custou 350 mil milhões de dólares (€310 mil milhões), o equivalente a uma vez e meia a economia portuguesa. As quatro economias mais massacradas foram o Bangladesh, Filipinas, Paquistão e Porto Rico.

O leitor ficará surpreendido com o aparecimento no clube de maior risco de quatro centros financeiros mundiais. Apesar das almofadas em reservas internacionais e do excedente externo de que dispõem, o endividamento extremo torna-os vulneráveis aos humores dos fluxos de capitais internacionais. A posição estratégica de três deles nas rotas do comércio internacional torna-os particularmente sensíveis à guerra comercial.

Dívida mundial mais do que duplicou

O endividamento tem sido uma força motriz da recuperação económica nos últimos nove anos. A dívida mundial mais do que duplicou desde o início da recuperação económica; em 2010 disparou de 117 biliões de dólares (€104 biliões) para 246 biliões de dólares (€218 biliões) no primeiro trimestre de 2019, segundo dados do Institute of International Finance (IIF) publicados esta semana.

O clube dos Estados com níveis de endividamento superior a 100% do PIB engordou. A grande maioria está na zona euro, onde se destacam Grécia, Itália, Portugal e Bélgica, mas atualmente está protegida pela política monetária do Banco Central Europeu.

Um dos critérios usados pelo Expresso, o da posição líquida de investimento internacional, que dá uma imagem do deve e haver em termos externos, revela que quatro países do euro têm as piores situações do mundo, com níveis negativos acima de 100% do PIB Irlanda, Grécia, Chipre e Portugal.

China estreia-se no mapa de risco

Um outro clube de risco nas economias desenvolvidas foi batizado de ‘canários na mina de carvão’, ou seja, países que têm de ser monitorizados de perto no caso de começarem a dar sinais de estoiro da bolha de crédito. Nele se incluem a Austrália, Canadá, Hong Kong, Nova Zelândia, Noruega, Suécia, Suíça e Reino Unido. A maioria encontra- -se nos três grupos de risco do mapa.

Phillip Colmar, estratego da consultora britânica MRB, sublinha que, nos casos da Austrália, Canadá e Reino Unido, a situação ultimamente “suavizou-se notavelmente”. O efeito temporário da queda dos juros “adiou um pouco o dia do acerto de contas”.

Uma das estreias na geografia do risco é a China, que entrou para o grupo dos países ‘amarelos’ (com risco moderado). O Fundo Monetário Internacional (FMI) colocou-a, este ano, no mapa de “pontos fracos”. Pela primeira vez ultrapassou a barreira de 300% do PIB no endividamento total, segundo dados do IIF. Ainda que tenha uma dívida externa de 14% do PIB e uma dívida pública de 51% do PIB, as vulnerabilidades derivadas do endividamento do sector financeiro, das empresas e das famílias são sublinhados pelo FMI.

RISCO MUITO ALTO – RISCO ALTO – RISCO MODERADO

Metodologia: as economias com risco mais elevado em cada um dos critérios rácios de dívida (total, famílias e sector financeiro) em relação ao PIB, risco de bancarrota associado à dívida pública, risco climático, risco cambial e posição líquida negativa de investimento internacional em relação ao PIB usados pelo Expresso são classificadas a vermelho, e podem ser consideradas os pontos fracos. A laranja são incluídas as economias do escalão intermédio que ainda registam risco alto. A amarelo são incluídas as economias com risco moderado em cada um dos critérios

Pontos Fracos 0 Expresso usou sete indicadores para colorir o mundo identificando três grupos de risco. A boa notícia é que Portugal está no clube de risco moderado

HONDURAS

Mais outra vítima do risco climático. Registou o sétimo custo mais elevado de catástrofes nas últimas duas décadas

HAITI
É o país mais pobre da América Latina. Nos últimos 20 anos, registou o oitavo custo mais elevado de catástrofes

PORTO RICO
É o mais pobre Estado associado à superpotência. Regista o custo mais elevado das tormentas climáticas nos últimos 20 anos

VENEZUELA
Tem um risco de bancarrota de 100%, atualmente o mais elevado do mundo, e está em convulsão política desde há seis anos. Tem a mais estratosférica hiperinflação do mundo e o bolívar desvaloriza 100% ao mês

SUIÇA
Tem o nível de dívida das famílias no PIB mais elevado do mundo. Mas conta com duas almofadas de relevo: reservas internacionais acima de 100% e uma boa posição líquida de investimento internacional

ARGENTINA
Para a salvar, o FMI aprovou em 2018 o maior resgate de sempre para uma economia que tem um elevado risco de bancarrota e uma dívida pública em moeda estrangeira (dólares) que equivale a quase 60% do PIB. Regista uma alta vulnerabilidade externa e política, segundo o índice do IIF

CHILE
Conseguiu a proeza de reduzir a pobreza de 30% para 6% em 17 anos, mas regista um endividamento total da economia superior a 200%

REINO UNIDO
O sector financeiro tem um endividamento no PIB elevado, superior aos de Hong Kong e do Japão, e a dívida pública entrou para o ‘clube’ das economias com o endividamento superior a 100% do PIB. Um ‘Brexit’ caótico pode fragilizar ainda mais a quinta maior economia do mundo

ZONA EURO
O espaço da moeda única tem um nível de dívidatotal no PIB superior à média das economias desenvolvidas e agrupa dois centros financeiros com rácios muito elevados de dívida (incluindo todos os sectores) e seis economias com níveis de dívida pública dos mais altos ou com as posições de investimento internacional mais frágeis do mundo. O FMI assinalou-a no conjunto como sendo um dos pontos fracos atuais no globo, ainda que a atual política monetária do BCE funcione como um guarda-chuva contra nova crise do euro

SUÉCIA
Sofre do mesmo mal da Dinamarca, com uma dívida total elevada no PIB, e em particular um endividamento do sector financeiro alto

DINAMARCA
Algo vai mal no famoso reino da Pequena Sereia. Os níveis de dívida do sector financeiro e das famílias no PIB estão entre os mais elevados do mundo

UCRÂNIA
É o terceiro país com maior risco de bancarrota. Tem um alto índice de vulnerabilidade externa e política, segundo o IIF. Está em guerra civil no leste do país

TURQUIA
É a economia emergente que regista vulnerabilidades em todas as dimensões do índice do IIF no plano externo, político e financeiro interno. Tem o quarto mais elevado risco de bancarrota do mundo. A desconfiança dos investidores acentuou-se ultimamente com a perda de independência do banco central

PAQUISTÃO
É o quinto país com maior risco de bancarrota no mundo e a segunda economia mais penalizada nos últimos 20 anos pelas tragédias climáticas

COREIA DO SUL
O antigo ‘tigre’ do Pacífico regista um endividamento total da economia acima de 300%. No entanto, tem uma dívida externa inferior a 30% do PIB e dispõe de reservas internacionais capazes de amortecer choques externos

JAPÃO
Lidera mundialmente na dívida pública em percentagem do PIB e é a quarta economia com a dívida total mais elevada em relação à riqueza criada pelo país. Mas dispõe de política monetária própria e tem uma dívida externa que representa apenas 13% da dívida total.

HONG KONG
Regista o mais elevado endividamento das empresas e da banca em moeda estrangeira (dólares) em percentagem do PIB. Dispõe de duas almofadas financeiras: uma posição líquida de investimento internacional das mais elevadas do mundo e reservas internacionais superiores a 100% do PIB.

FILIPINAS
É uma das vítimas de topo da crise climática nos últimos 20 anos e regista um índice elevado de volatilidade financeira interna.

MALÁSIA
Está no último lugar do ‘clube’ das economias com um endividamento superior a 200% do PIB. Tem necessidades de financiamento externo anuais de mais de 20%, uma situação similar à da Argentina.

BANGLADESH
Sendo o oitavo país mais popu do mundo é uma das quatro economias com o custo mais elevado das catástrofes climáticas nos últimos 20 anos.

MYANMAR

Pertence ao ‘clube’ das economias que mais sofrem com o risco climático, registando o sexto custo mais elevado nos últimos 20 anos.

SINGAPURA
Tal como Hong Kong tem elevados níveis de endividamento das empresas e da banca em moeda estrangeira (dólares). Tem duas almofadas financeiras: uma posição líquida de investimento internacional robusta e reservas internacionais perto de 80% do PIB.

VIETNAME
É mais uma das vítimas do risco climático. Regista o quinto mais elevado custo provocado por catástrofes em 20 anos.

BAHREIN
Está no clube das oito economias com maior risco de bancarrota e vive uma crise política grave há oito anos sendo um peão no jogo de forças entre a Arábia Saudita e o Irã.

LÍBANO

É a economia emergente com o nível mais elevado de dívida pública no PIB, acima de 150%, superior à portuguesa ou à italiana. Regista o défice externo mais elevado do mundo, 27% do PIB.

AUSTRÁLIA
O país dos kiwis e dos cangurus regista o segundo mais elevado endividamento das famílias no PIB e tem uma posição líquida de investimento internacional negativa.

Fonte: por Jorge Nascimento, para Expresso em 20.07.2019.

2019-07-28T08:06:10-03:0024/07/2019|Notícias|Nenhum Comentário
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