Boom de créditos on-line na China incentiva startups, investimentos e riscos

Shai Oster

05/06/201512h48

Embora os precursores dos empréstimos entre particulares, conhecidos como empréstimos P2P, tenham sido empresas dos EUA, como a LendingClub Corp., é na China onde a prática realmente está se tornando popular.

Os credores P2P com base na internet nesse país outorgaram pelo menos US$ 32,5 bilhões em créditos neste ano, quase o quádruplo do restante do mundo combinado, segundo o banco britânico de investimento Liberum Capital Ltd. A instituição prevê que os empréstimos na China quase dobrem neste ano, para US$ 60 bilhões, frente a US$ 11,7 bilhões nos EUA, o segundo maior mercado. Nos empréstimos P2P, as companhias utilizam a internet para emparelhar mutuários e credores com taxas melhores do que a dos bancos.

O crescimento desmesurado está atraindo investidores de renome, como a Tiger Global Management e a Alibaba Group Holding Ltd. E está colocando à prova um sistema bancário dominado pelo Estado que tradicionalmente favorece as grandes empresas do governo em detrimento de agentes menores.

Soul Htite, um dos fundadores do LendingClub, que saiu da companhia para formar o credor chinês Dianrong.com há cerca de três anos, disse que acredita que o impulso esteja apenas começando.

“O mercado na China é mais rentável porque os custos são mais baixos e o crescimento é muito maior”, disse o empreendedor de 42 anos em uma entrevista.

A Dianrong, que reúne fundos de investidores e empresta-os a empresas menores ávidas por capital, espera liderar a nova safra de serviços de empréstimos P2P. A companhia facilitou cerca de 1 bilhão de yuan (US$ 161 milhões), a maioria em empréstimos comerciais, cobrando taxas mais baixas do que os bancos do sistema paralelo a que as empresas privadas recorrem quando não conseguem obter créditos tradicionais mais baratos.

‘Sistema bancário paralelo’

“As taxas de juros do sistema bancário paralelo podem chegar a 50 por cento – é injusto”, disse Htite, em uma entrevista, de Hong Kong, no dia 29 de maio. “Há pessoas que representam bons riscos a 12, 11 ou 5 por cento”.

Para os investidores chineses, os empréstimos P2P oferecem taxas de juros mais altas que as que eles conseguiriam se deixassem o dinheiro no banco, com a promessa de um risco mais baixo do que colocar o dinheiro no volátil mercado acionário da China. Os credores afirmam que reduzem os riscos de calote espalhando o dinheiro por um grande número de créditos.

O ritmo de crescimento atraiu investigações regulatórias: representantes chineses estão considerando quais normas são necessárias para supervisar o setor. O vice-presidente do Banco Central, Pan Gongsheng, advertiu em novembro que a maioria das empresas financeiras de internet “não é bem versada” na gestão de riscos.

Clareza e confiabilidade

Htite recebe bem essas investigações porque acredita que elas aumentarão a clareza e a confiabilidade. Ele acrescenta que, embora seu modelo combine empréstimos, na prática, cada credor assina minicontratos com cada mutuário, o que garante uma transparência maior.

A Dianrong está tentando crescer através de parcerias com bancos e empresas, como a eBay Inc., para oferecer empréstimos e outros serviços financeiros e se expandir no exterior.

A nascente arena de financiamento on-line da China não está livre de riscos. Ela já está repleta com mais de 1.500 credores – e nem todos são solventes. Segundo o Yingcan Group, que acompanha os dados, 275 credores foram à falência ou tiveram problemas para reembolsar o dinheiro no ano passado, o que levou os reguladores a analisarem mais de perto o setor.

Tencent e Alibaba

No entanto, as perspectivas de um crescimento mais rápido e de retornos mais altos estão atraindo investimentos.

A Tiger Global, a empresa de investimentos dos EUA dirigida por Chase Coleman, comprou uma participação não revelada na Dianrong neste ano. A Tencent Holdings Ltd., a segunda maior empresa de internet da Ásia, que é dona do serviço de mensagens WeChat e é uma afiliada da Alibaba, provedora de comércio eletrônico, entraram na briga.

No total, 24 empresas P2P receberam 3 bilhões de yuan em financiamento de empresas – como a oftBank Corp., a Sequoia Capital e a Xiaomi Corp. – até setembro, de acordo com o Zero2IPO Group, que acompanha o setor.

Os planos da Dianrong para o futuro incluem aproveitar capital de credores dos EUA.

“Queremos levar capital americano para a China”, disse Htite. “Se houver um mutuário em Xangai, podemos conectá-lo a um credor em Cincinatti. Esperamos poder fazer isso daqui a um ou dois anos”.

Título em inglês: ‘China’s Online Lending Boom Spurs Startups, Investment and Risk’

Para entrar em contato com o repórter: Shai Oster, em Hong Kong, soster@bloomberg.net

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