Superendividados

O uso sistemático do cheque especial e a utilização do parcelamento nos cartões de crédito são duas práticas que agravam sobremaneira as dívidas.

Segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), o número de brasileiros superendividados, aqueles que não conseguem ganhar dinheiro suficiente para pagar suas dívidas, era de 30 milhões de pessoas em 2018. Especialistas destacam que o superendividado não tem capacidade de pagar suas contas básicas. Para quitar o que deve junto a bancos, deixa de pagar aluguel, água, luz, e em muitos casos deixa de comer.

Trata-se de grave problema que afeta a subsistência das pessoas, e que as coloca em situação de absoluto desespero. A crise econômica, que afetou o emprego de milhares de pessoas, é a principal causa das dificuldades, mas é preciso salientar que a disciplina e o planejamento financeiro são, em muitos casos, desdenhados por muitos, levando-os a situações insustentáveis.

O uso sistemático do cheque especial e a utilização do parcelamento nos cartões de crédito são duas práticas que agravam sobremaneira as dívidas. Basta notar que, apesar da redução da taxa básica de juros da economia, fixada atualmente em 5,5% ao ano, as taxas cobradas tanto no cheque especial como no rotativo do cartão de crédito superam 300% ao ano, segundo dados recentes do Banco Central.

É absolutamente impossível a alguém que já está endividado arcar com tais encargos. O resultado é a inadimplência absoluta, que exige determinação para ser superada. A renegociação das dívidas é necessária, mas é preciso avaliar se as propostas feitas pelos credores são possíveis de serem pagas. Mesmo com taxas mais baixas, muitas vezes o consumidor não consegue pagar o novo plano. É fundamental que, antes de renegociar o empréstimo, o devedor faça um exercício real do quanto pode comprometer-se com prestações da dívida, já que novos atrasos podem significar a volta à situação anterior, com o cancelamento do acordo.

Deve haver a consciência sobre a importância do não endividamento. Nesse sentido, é positivo perceber que boa parte daqueles que pretendem sacar os recursos liberados do FGTS (R$ 500,00, conforme a data do aniversário) pretende utilizá-lo para a quitação de dívidas. De acordo com pesquisa da Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC-Brasil), quase 10 milhões de brasileiros, 38% dos que pretendem receber o dinheiro do FGTS, vão usar o recurso para o pagamento de dívidas, sendo que 33% devem guardar ou investir o dinheiro sacado.

A economia de um país é ativada pelo consumo das famílias. Esse consumo deve ser, porém, responsável e compatível com a renda de cada um. O desenvolvimento econômico, com seu ciclo virtuoso, com o aumento dos negócios em todos os níveis, depende da redução da inadimplência e da situação dos superendividamento, que infelizmente ainda atinge milhões de brasileiros.

Fonte: editorial do jornal “A Tribuna”, em 14.10.2019.

2019-10-18T15:58:56-03:0024/10/2019|Notícias|Nenhum Comentário
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