Será que o as empresas realmente podem contribuir para um mundo melhor? – PARTE III

Onde há luz, também há sombra.

O rápido crescimento do capitalismo trouxe consigo uma série de questionamentos. As críticas ao capital já aconteciam antes mesmo de o capitalismo se configurar. Há um afresco pintado em 1304 por Giotto mostrando Jesus expulsando mercadores e trocadores de dinheiro que estavam transformando o templo de Jerusalém em um balcão de negócios, ou um “antro de ladrões”, segundo o Novo Testamento.

Em 1776, já com a Revolução Industrial em curso, Adam Smith escreveu “A Riqueza das Nações”. Além da famosa citação: “Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelos próprios interesses.”

Um pensamento chama a atenção na obra-prima de Smith. Ele disse que “a violência não é um incentivo ao trabalhador e o custo de comprar e manter escravos excede em muito o custo dos salários. Os capitalistas ganharão muito mais dinheiro tratando seus trabalhadores de forma legal e humana.”

Já nesta época se podia imaginar os chefes gritando e açoitando escravos para produzirem mais, enquanto Smith começava a defender a ideia de que a retenção de trabalhadores funcionaria se eles fossem bem tratados. Passado tanto tempo, é surpreendente ver como temos muito que aprender sobre isso ainda.

Voltando ao breve passeio pela história do capitalismo, em 1854, a economia inglesa era a maior do mundo. Muitos empreendedores e “capitalistas” acumularam rapidamente fortunas consideráveis, uma espécie de explosão de riqueza. Naquele ano, Charles Dickens publicou o romance Hard Times, uma ficção que se passa na cidade de Coketown (em referência a Manchester, o principal pólo industrial do período), e atacava “capitalistas sem coração”.

Poucos anos depois, John Ruskin, publica “Unto the Last”, um ataque frontal ao capitalismo, tanto no lado da produção quando na área do consumo. Ele colocou uma pergunta-chave: “Em nome do quê?” No livro, Ruskin chamava a atenção para o fato de que grandes fortunas capitalistas eram construídas com a venda de coisas absurdas: bugigangas, pratos chiques, guardanapos bordados, aparadores esculpidos. Alguma coincidência com os tempos atuais?

“Todo o sofrimento das fábricas de algodão de Manchester está sendo alimentado pelo nosso apetite por camisas muito baratas, com colares delicados”, escreveu. Na visão de Ruskin, o dinheiro não só deve ser feito moralmente, mas também deve ser gasto moralmente nas coisas verdadeiramente nobres e belas que os humanos precisam. Gandhi foi muito influenciado por Unto the Last e até disse que mudou sua vida — tão inspirado que estava.

Dando um salto no tempo, vamos para 1999, em Seattle. Naquele ano, havia uma grande reunião da Organização Mundial do Comércio. O que não se esperava é que a ordem de reuniões em salas fechadas com ar-condicionado e cadeiras confortáveis seria desfeita com milhares de manifestantes que se reuniram para pedir o fim das desigualdades do capitalismo global. Eles tinham uma série de queixas elencadas.

Aquela manifestação foi marcante, porque deixou claro que os vencedores no capitalismo são apenas uma pequena porção comparados àqueles que estão insatisfeitos e de alguma forma concordam com Jesus, Dickens, Ruskin e Gandhi.

Um exemplo mais recente ainda dos dilemas atuais vem da maior corporação do mundo, a Apple, que enfrentou as acusações de ser indiretamente responsável pelo sofrimento e abuso de muitas pessoas em sua cadeia de fornecimento.

Em 2015, casos de suicídio na fábrica da Foxconn, na China, a principal fornecedora para a Apple produzir iPhones, chamaram a atenção do mundo. Foram tantos casos (18 pessoas tentaram se matar e 14 conseguiram), que a fabricante teve que colocar redes ao lado do prédio para evitar que as pessoas continuassem buscando a solução extrema de tirar a própria vida.

Apesar de todos os avanços, é preocupante ver que a expectativa de vida está caindo em um dos países que é o principal ícone do capitalismo: os Estados Unidos. O relatório dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) americano publicado em 21 de dezembro mostrou que a expectativa de vida naquele país caiu em 2016, pelo segundo ano consecutivo. Um bebê americano nascido em 2016 pode esperar viver em média 78,6 anos, abaixo dos 78,9 em 2014. A última vez que a expectativa de vida foi menor do que no ano anterior foi em 1993. A última vez que caiu por dois anos consecutivos foi na década de 60. Depois de problemas de coração e câncer, a terceira causa são injúrias não-intencionais, que inclui overdose por uso de drogas. Mais de 63 mil estadunidenses morreram por essa causa em 2017. É mais do que as mortes de militares dos EUA na Guerra do Vietnã.

 * * * FIM DA PARTE III * * *

Fonte: por Rodrigo Vieira Cunha* em 28.07.2018.

Parte I: Será que o as empresas realmente podem contribuir para um mundo melhor?

Parte II: O Ponto de Partida

Integra do artigo: http://bit.ly/empresasparaummundomelhor

* Estuda movimentos contemporâneos de evolução da humanidade para interpretar e compartilhar conteúdos 
em diferentes formas: palestras, textos, apresentações, artigos e conversas. 
É embaixador-sênior do TED no Brasil e sócio das agências de comunicação LiveAD e ProfilePR. 
Também organiza retiros sobre desenvolvimento de consciência com líderes de diversos países. 
Está escrevendo o livro "Humanos de Negócios". 
Está organizando o "Flow" – um festival para trazer ferramentas 
e aumentar o nível de consciência das nossas relações.

 

2018-08-07T15:21:23-03:0003/08/2018|Sustentabilidade|Nenhum Comentário
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