Começa nova disputa do Pix

Supermercados, farmácias, redes de lojas de roupas, a padaria da esquina. É longa e diversificada a lista de empresas que esperam e poderão operar com o Pix, novo sistema de pagamentos instantâneos do BC (Banco Central), cujo cadastro começou nesta segunda-feira (5).

Os mais ansiosos são os grandes bancos: haverá mais concorrência na disputa por 180 milhões de potenciais clientes.

Inclui-se aí a briga pela atração dos já bancarizados que, segundo o Banco Central, reúne mais de 140 milhões de brasileiros, bem como a concorrência pela inclusão.

“Temos praticamente 45 milhões de desbancarizados no país. Pelo menos metade deles será bancarizada com o Pix, já que vai ser muito simples fazer transferências”, diz Marcelo Scarpa, diretor executivo do banco digital Digio.

O Pix possibilitará transações imediatas e gratuitas, 24h por dia, nos sete dias da semana —incluindo feriados— para todas as instituições financeiras e de pagamentos reguladas pelo Banco Central, algo que não ocorre hoje.

Na prática, tira dos dos bancos tradicionais e digitais o domínio com transferências de TED e DOC e muda a dinâmica das operações de débito.

A expectativa é que, no caso de empresas de comércio e serviço, ocorra redução nos custos das transações e, para os clientes, que se veja a troca, ainda maior, do cartão de plástico por operações via celular.

Os bancos, que pleitearam a implantação gradativa do sistema, em fases mais longas —e não foram atendidos pelo BC—, agora apresentam trunfos para essa nova fase.

Uma frente de ação é conquistar parcerias com redes de varejo, que também poderão oferecer transações para seus clientes. Essas companhias (reconhecidas no Pix como “participantes indiretos”) precisarão estar conectadas a um participante direto do novo sistema (instituições financeiras e de pagamentos).

“O ganho de receita com os indiretos tende a vir com mais tempo. Mas a partir do momento em que um varejista se conecte conosco e comece a entender a necessidade financeira dos clientes, já é uma porta de entrada para colocarmos nossos produtos à venda por meio do canal dessa empresa”, diz o diretor de estratégias e open banking do Itaú, Carlos Eduardo Peyser.

O executivo fala também de ações voltadas aos que ainda não possuem conta em banco.

“Quando eu começo a ter a entrada de desbancarizados no meu sistema, consigo fazer boas ofertas e ter um retorno rápido. Mesmo que ele não pague tarifas, se começa a usar o aplicativo do banco, já existe um potencial para que busque crédito ou use nossos serviços pagos”.

Os bancos enxergam ainda possibilidades de aumentar receitas com os atuais clientes.

“Primeiro precisaremos trazer a cultura de uso do novo meio de pagamento. Em seguida, apresentaremos ofertas personalizadas para promover uma maior ligação ao banco. Por fim, vamos conquistar novos clientes”, afirma Marcelo Labuto, diretor de varejo do Santander.

O bancos enxergam espaço também na implementação do Pix em grandes companhias, para a gestão do fluxo de caixa, por exemplo.

“Grandes empresas têm uma gestão de software com necessidades mais complexas e uma governança mais avançada. Colocar o Pix como uso prático de tesouraria, por exemplo, também pode ser uma opção”, diz o diretor da área de digital cash do Itaú, Marcos Cavagnoli.

Apesar da lista de vantagens, as instituições financeiras não descartam uma perda de receita com a chegada do Pix. Segundo o diretor de meios de pagamentos do Banco do Brasil, Edson Costa, a retração virá especialmente da substituição nas transferências por TED e DOC.

“Mas há um limite nessa perda, já que os bancos têm uma política de flexibilização de preços e produtos. Temos trabalhado na nossa estrutura, na ampliação da base de usuários e da oferta de produtos e serviços para manter um relacionamento longevo com os clientes”, afirma Costa.

A expectativa de perda de receita entre os bancos varia entre 1% e 2%. Só no segundo trimestre deste ano, os cinco maiores bancos do país (BB, Bradesco, Caixa, Itaú e Santander) somaram R$ 32,5 bilhões em receitas com tarifas e serviços —2% deste valor equivale a R$ 649,6 milhões.

Além disso, segundo a Febraban (Federação Brasileira de Bancos), dados do sistema financeiro de 2018 apontavam que 62% das contas transacionais disponibilizadas no setor já eram gratuitas por regras estabelecidas pelo BC.

Os 38% restantes, segundo a Febraban, seriam de clientes que pagam por um pacote de serviços —que normalmente incluem gratuitamente um determinado número de transferências, saques e consultas, entre outros.

Dentro da contabilidade interna dos bancos, o Pix traria algumas vantagens que poderiam compensar uma eventual redução na receita, como o corte de custos com logística de transporte de dinheiro.
“Manipular dinheiro é caro, e parte dos benefícios do Pix também vem com a diminuição do papel moeda.

Toda essa logística de numerários, distribuição, vigilância, segurança e transporte é estimada em um custo de R$ 10 bilhões por ano”, afirmou o diretor executivo de inovação da Febraban, Leandro Vilain.

Ao passo em que os bancos já começam a adaptar seus sistemas, a experiência do cliente deve falar mais alto.

Segundo pesquisa realizada pela equipe de inteligência de mercado da Globo, 50% dos entrevistados trocariam de banco se atributos como gratuidade de transferências e capilaridade física para saque fossem equalizados entre as instituições, novidades que virão com o Pix.

Executivos do setor também afirmaram à Folha que os investimentos em tecnologia tendem a aumentar. Dados da Febraban apontam que só no ano passado os bancos direcionaram R$ 25 bilhões para o setor tecnológico.

Na visão do diretor executivo do Digio, o Pix será um habilitador dessas novas tecnologias, colocando os bancos digitais, que já não cobram tarifa, um passo à frente das instituições tradicionais.
Segundo o diretor executivo de tecnologia da informação e operações do Banco Original, Raul Moreira, existem três forças de grande importância para o mercado.

“A primeira é a rápida evolução regulatória, a segunda é o avanço da tecnologia e a terceira é maior aptidão de uso por parte do consumidor, situação que, inclusive, se intensificou com o isolamento social por causa da pandemia do coronavírus”, diz Moreira.

O Pix também deve movimentar novos arranjos. “Nós já temos uma parceria com a Tim, por exemplo, detentora de uma das principais chaves do Pix, que é o número de celular”, afirma o diretor de produtos do C6 Bank, Maxnun Gutierrez. Segundo ele, a emissão de fatura se transformará em um QR Code via aplicativo, por exemplo.

O trabalho agora, explica Eduardo Cottas, superintendente do Banco Inter, é fazer com que as validações sejam ainda mais robustas. “O QR Code tem um potencial enorme para ser utilizado mesmo para nós, e o baixo custo do Pix reforça o modelo de negócio do banco digital”, diz.

A previsão do BC é que o Pix esteja completamente implementado e já em funcionamento a partir de 16 de novembro deste ano, mas há uma tendência de que a adoção do novo sistema pelas instituições que não são obrigadas a aderi-lo aconteça de forma gradual.

“As instituições tendem a adotar o Pix de maneiras diferentes em um primeiro momento, a depender da maturidade de seus sistemas. A maioria quer entrar, mas teremos um tempo de adaptação”, diz Claudio Guimarães Júnior, diretor executivo da ABBC (Associação Brasileira de Bancos)

Fonte: por Isabela Bolzani para Folha de S.Paulo em 05.10.2020