Transformação da cultura organizacional

A questão que dá título a este texto tornou-se recorrente dentro das grandes empresas brasileiras. Vivemos em um contexto em que questões de gênero, raça, sexualidade e deficiências visíveis e invisíveis são inseridas no debate na esfera pública. Uma diversidade, dentro desse cenário, traz uma alusão ao fato de falar sobre minorias representativas e, para além disso, faz com que pensemos em grupos que não sentem as mesmas representações pelas citadas acima.

Um bom ponto de partida é pensar que somos uma sociedade na qual mais da metade da população brasileira é composta de mulheres e negros, segundo os dados do último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Aqui, já nos separamos com a inversão da lógica pré-definida de grupos considerados minoritários que representam, na verdade, a maioria da população.

Por outro lado, apenas um terço (31%) das mulheres brasileiras ocupam posições estratégicas, de acordo com a pesquisa realizada com as 500 maiores empresas do Brasil pelo Instituto Ethos. Já os profissionais negros estão em 6,6% das despesas de gestão. Esse percentual cai ainda mais para fazer um retorno para nós, mulheres negras e cargas estratégicas: 0,4%.

Em 20 anos de atuação em grandes corporações, quando avalie minha trajetória, algo que me chama atenção é a visibilidade da diversidade desde a última década: o assunto passou a ser tratado dentro do mercado corporativo como estratégico e parte do negócio. O que é positivo e necessário, pois você vai encontrar um fato de viver em uma sociedade plural em todos os lugares e trajetórias diferentes. Afinal, o mercado corporativo é um importante ator do ecossistema, com responsabilidade de olhar conscientização, equidade e interseccionalidade, refletir esse olhar para dentro.

E como falar sobre a transformação da cultura organizacional, o ponto de vista da diversidade e a inclusão, nenhum ambiente corporativo? Indo direto ao ponto e abordando conceitos que estão tão intrinsecamente naturalizados que, por vezes, não são percebidos ou quanto podem ser preconceituosos e prejudiciais para o ambiente de trabalho. Promover a conscientização de que o assunto é responsabilidade de todos os indivíduos: não existe terceirização neste tema, e o grande desafio é nos organizarmos para executar a partir de elementos identitários e não mais a partir de nossa posição na estrutura.

Uma jornada de Inclusão e Diversidade começa pelo fomento de um ambiente onde cada funcionário se sente à vontade para ser o mesmo todos os dias da sua vida profissional. Diversidade de equipes de construção com visões mais plurais de negócios e novos negócios. Esse é o nosso guia mais eficiente, pois apenas juntos e passando por todas essas etapas conseguem promover uma cultura organizacional que celebra o caráter único e individual de cada pessoa.

Aqui, no Comitê de Inclusão e Diversidade do Visa, são aplicadas práticas e políticas com foco em conscientização, inclusão e responsabilidade social / negócios. Nosso pontapé foi mapear o entendimento e o grau de maturidade sobre o assunto. Em seguida, partimos para ações práticas, passando por mentorias exclusivas para mulheres, participação na parada LGBTQI +, análise da cadeia de valor, empreendedorismo negro e falas com especialistas do meio acadêmico, estatísticas e corporações.Entendemos que a troca, além de desafiadora, promove mais discussões, disseminação de conhecimento e reflexões sobre a efetividade das ações executadas dentro da empresa.

Nossa abordagem é acolhedora, possibilitando a troca de idéias entre os colaboradores, para que cada um contribua com sua própria vivência e especificidade. É, na verdade, uma jornada que perpassa pela reflexão e pela conscientização em busca de uma construção coletiva dos funcionários. Um longo processo que inicia dentro de fóruns.

Ter um espaço para diálogo interno dos funcionários, pesquisa e metas compartilhadas, passos imprescindíveis para estimular a compreensão sobre a diversidade e a inclusão, evoluir cada vez mais para a adoção de práticas inclusivas, construção de novos negócios e para atração e retenção de profissionais na empresa. Como em um efeito cascata, mais profissionais se interessam em trabalhar na empresa, contribuindo para o mundo corporativo seja realmente um reflexo da sociedade brasileira.

Fonte: por Camila Novaes, para o Jornal Globo em 04.08.2020

* Camila Novaes é gerente de Marketing da Visa e líder do Comitê de Inclusão e Diversidade