Para falarmos dessa nova realidade precisamos voltar um pouco no tempo e dividir a temporalidade em quatro fases:

Na primeira fase, tínhamos um ambiente contábil frágil, sem controle, dominado por situações de ajustes manuais onde os dados originários e necessários para a feitura da contabilidade não eram entregues, ou se eram, vinham com uma série de inconsistências ou inconformidades. Nessa etapa a tecnologia já existia, mas os processos de integração e importação eram feitos sem segurança e agilidade, havia muito retrabalho e muita digitação. Nessa primeira fase, não se tinha a menor possibilidade de uso da contabilidade como elemento de gestão, poucas eram as exceções.

Entramos numa segunda fase com a criação do SPED (Sistema Púbico de Escrituração Digital). Nesse momento a contabilidade começou a ser vista como “perigosa”, pois agora todas as informações são de conhecimento de todos: fisco, sociedade, sistemas, tudo está sendo visto a todo momento. Essa foi uma fase de atenção voltada quase que exclusivamente para o ambiente tributário das empresas, que cercados de novas obrigações acessórias e com uma carga enorme de parametrizações e ajustes deixou a parte contábil literalmente de lado. O necessário nessa fase era eliminar os riscos das informações fiscais inconsistentes e proteger as empresas dos possíveis passivos contingenciais tributários, aqui também temos poucas exceções de empresas que ainda assim utilizavam a contabilidade como elemento de gestão.

Passado o momento disruptivo do SPED, entramos na terceira fase, com o fortalecimento da classe contábil melhorando gradativamente, com renovação de entidades e profissionais, exame de suficiência, e tecnologia como diferencial na produtividade. Essa fase, creio, ainda não terminou, pois embora tenhamos avançado em muitas questões, negligenciamos a qualidade, não nos preparamos para um ambiente veloz, e não criamos a cultura de dar importância as informações contábeis.

Grandes influenciadores falam de qualquer assunto, menos de contabilidade, é uma verdadeira fuga da ciência, onde tudo passa a ser importante para se ter uma contabilidade em dia e com qualidade, mas onde nada é feito para que essa efetividade aconteça. Nessa fase, que reitero, ainda não ultrapassada, começamos a ter um enorme desafio, que é ter pessoas capazes de fazer algo que nunca fizeram, e usuários de contabilidade que nunca a viram e que agora começam a querer vê-la, mesmo que ainda não entendam para que ela serve, ou se ela serve para alguma coisa, pois foram tantos anos vivendo sem seu uso, que é no mínimo razoável o entendimento de que, talvez, não sirva. Aqui migramos para a fase quatro, o que muitos chamam então de contabilidade 4.0.

Na atualmente conhecida como “contabilidade 4.0” o desafio não é a tecnologia, até porque ela é e sempre será uma aliada. Na realidade a tecnologia sempre foi aliada e gradativamente vem tendo cada vez mais importância nos processos. O verdadeiro desafio é que não preparamos nossas pessoas, não temos profissionais capazes de lidar com a pressão que o mercado atual exige, não percebemos o avanço gradativo das fases e não nos preocupamos em migrar as pessoas para a fase 4.0. O resultado é que temos a tecnologia fazendo a sua parte, e pessoas desesperadas e despreparadas para assumir o novo desafio, que é cumprir prazos contábeis (não meramente tributários ou correlatos). Nessa fase o grande desafio não é então ter produtividade, é assumir que não preparamos nossos profissionais contábeis. Do outro lado da moeda estão os usuários da contabilidade, que por sua vez também não foram preparados para munir a ciência contábil das informações necessárias para a feitura correta e rápida que a tecnologia nos possibilita. Entramos em choque, estamos paralisados nas duas pontas: em uma temos quem deve enviar certo não envia pois nunca fez e não foi preparado para fazer o “exercício de alguém que pede informação com tanta velocidade”, e na outra estamos nós, que não sabemos pedir, não sabemos apoiar, queremos que tudo venha pronto, e se não vier, não esticamos sequer uma mão para que as coisas aconteçam, nos valendo da certeza de que não recebemos, então não vamos entregar, ou recebemos, mais não como deveria vir.

Não estamos no momento da Contabilidade 4.0, esse momento nunca existiu, nem existirá. Nossa crise é humana, estamos com mais tempo, porém com muito mais distrações. A mesma tecnologia que avançou na contabilidade permite que você a faça assistindo Netflix, vendo jogo de futebol, “curtindo” notícias e dando likes em toda e qualquer coisa fake que se apresente com mais cores ou com o conteúdo do momento.

Contabilidade 4.0

Não preparamos nossas pessoas, as gerações se confundem, as necessidades são outras, o ambiente de dispersão é maior, o profissionalismo, por conseguinte, menor. Nesse ambiente não importa se todos os dados chegam, porque nas duas extremidades temos pessoas frágeis, frágeis em conteúdo emocional, frágeis em conteúdo intelectual, frágeis em conteúdo comportamental, frágeis no propósito de sermos melhores.

Se não procurarmos ser melhores, não será uma crise de profissão, será uma crise de identidade, e sem rosto, não há muito mais o que fazer. Então que possamos refletir sobre isso, dar ênfase na retenção daqueles que se diferenciam, e se preparar para uma selva de “mentiras brancas”, pois vivemos no mundo que em todas as direções todos devem fazer tudo, menos você.


Fonte: por Sérvulo Mendonça*, para CollBusiness News em 21.02.2020.

*especialista na área contábil, CEO do Grupo Epicus e fundador do Fórum 3C.