Crédito Consignado, sua história, as facilidades e dificuldades, seu crescimento e a inadimplência!

Um mergulho no produto que representa hoje a maior carteira de crédito do país para Pessoas Físicas.

O Crédito Consignado, uma modalidade especifica de crédito também conhecida como empréstimo consignado, é um produto de empréstimo pessoal com parcelas  deduzidas diretamente da folha de pagamento ou do benefício e que hoje representa 36,9% da carteira de crédito PF – Recursos Livres. O Consignado virou realidade a partir de 2004 no Governo Lula 1, e cresceu nos últimos 10 anos 500%:

O produto pode ser separado em 3 grupos: INSS – oferecido para aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), o Público – oferecido a funcionários das mais diversas administrações públicas (Governo, Prefeitura, Câmara Deputados, Tribunais de Justiça, etc.) e o Privado – oferecido para funcionários de empresas privadas. O maior volume financeiro (carteira de crédito) está na modalidade direcionada aos funcionários públicos com 56% do total do consignado, seguido pelo INSS com 38% e do privado por 6%.

Com o desconto direto na folha de pagamento, o produto possui os juros bem menores em relação a outras linhas de crédito, tendo em vista a maior certeza do recebimento.

A modalidade virou uma febre entre as instituições e qualquer banco pode oferecer o consignado, independente da conta salário estar ou não naquela instituição. É fato que cada instituição deve formalizar convênios específicos com cada empresa privada, com o INSS e com cada órgão público.

Visando regular a modalidade o Ministério da Previdência, por exemplo, elaborou uma norma com o objetivo de limitar o quanto o beneficiário pode comprometer de seu benefício.

Atualmente pode ser comprometido até 35% da renda mensal do usuário, sendo 30% em forma de empréstimo e 5% em forma de saque no cartão de crédito consignado, segundo o site do banco central.

Os prazos deste produto também são bem específicos e sua duração não pode ser superior a 96 meses no caso de servidores públicos federais e 72 meses para aposentados e pensionista.

O risco do produto consignado é bem menor, dado sua característica e conforme podemos considerar no indicador over 90 do BACEN:

Mas este risco reduzido para inadimplência não dá ideia no nível de controle e de particularidades que deve nortear um processo de crédito consignado. Tive a experiência de em meados de 2005 gerenciar este produto em uma grande financeira.

Mas se o produto é debito na folha, porque da inadimplência percebida nos indicadores acima:

Tudo começava com o produto INSS o qual ainda tinha algumas questões diferentes dos dias atuais. Uma delas, o meio de disponibilização do crédito. Na época o empréstimo poderia ser disponibilizado na conta benefício ou por OP (ordem de pagamento). Aqui estava o primeiro risco neste produto, a FRAUDE. Meu trabalho foi focado em transformar uma área de tratamento de reclamações em uma área de prevenção e detecção de fraude.

O segundo risco do produto INSS era a MORTE, o que fazia com que dentre as variáveis observadas no ingresso do cliente, avaliássemos a idade. A idade por si só por mais que indique uma questão de expectativa de vida, porém não garante que clientes com menor idade não venham a falecer. Enfim era mais uma das variáveis que podem gerar um default ou uma inadimplência.

O terceiro motivo, posso dizer, é aquele que dá mais trabalho na gestão de um produto consignado. São as regras que vão indicar qual o valor da parcela, ou seja, com a “Margem Consignável”, para que não ocorra a chamada PERDA DE MARGEM.

Mas isso deveria ser simples, não? Afinal a regra é comprometer até 35% da renda mensal do usuário, sendo 30% em forma de empréstimo e 5% em forma de saque no cartão de crédito consignado.

Faltou apenas algo não tão simples. 35% do que?

Ora, do salário, é claro. Salário este que, por exemplo, no caso do INSS é bem simples, é realmente o benefício. Mas e em outros órgãos? Ai o buraco é mais embaixo. Vamos imaginar que um assessor parlamentar ganhe R$ 10.000 de salário. Mas por um processo específico o mesmo foi eleito a um cargo comissionado e com isso agregou mais R% 1.000 no seu salário. E neste caso sobre qual valor eu calculo os 35%?

O valor de R$ 1.00o é um novo benefício, porém ele pode ter um tempo determinado, por exemplo 4 anos (o tempo de um mandato político). E neste caso quando este valor “cair” a parcela pode não mais ser debitada por exceder o % da Margem Consignável.

Outro exemplo interessante é que em alguns órgãos, existem valores que podem ser inseridos mensalmente a partir da utilização ou não do prestamista, por exemplo um desconto de farmácia. Este valor por exemplo de R$ 200 reais reduz o valor total e impacta em uma perda de margem que neste caso pode ser temporária.

Enfim são diversos os aspectos que devem ser levados em consideração no planejamento de um produto de empréstimo consignado.

E então como “cobrar” esse produto?

Ocorre que a cobrança não é efetivamente cobrar o cliente. A não ser por exemplo em uma situação onde houve uma perda definitiva de margem, por exemplo em uma situação de consignado privado onde o cliente foi demitido.

Mesmo neste último caso o credor do empréstimo consignado ainda tem a opção de debitar o valor do empréstimo da rescisão, porém esta muitas vezes não é o suficiente para cobrir o débito.

Então temos que ter um processo de “cobrança” ou “recuperação” da margem, onde tratamos caso a caso. Cobramos que efetivamente teve perda de margem definitiva e tentamos recuperar a parcela com uma reprogramação dos débitos em caso de perda temporária.

Complicado ou não, o crédito consignado continua avançando e crescendo na carteira de crédito. Os bancos/financeiras e os correspondentes trabalham muito a renovação, ou melhor, mesmo ainda sem finalizar o contrato, quando se percebe um aumento do benefício é hora de oferecer mais dinheiro ao pensionista. Outra situação, é a compra de dívidas de outras instituições, onde a partir de um % de pagamento do contrato oferta-se um novo valor alongando o prazo do contrato.

A questão é: Será que este é o crédito saudável e sustentável que buscamos para o país? Será que o crédito está exercendo seu papel de inclusão, ou acabou passando a ser mais um “benefício” que as pessoas passam a não saber viver sem ele?

Em uma apresentação que fiz, falei que é hora de revermos nosso modelo capitalista. É hora de pensarmos em soluções de inclusão, porém com a sustentabilidade necessária.

Um grande abraço!

Fonte: por Eduardo Tambellini, para CollBusiness News  em 14.06.2018, publicado simultaneamente no seu blog: Tabelando com Tambellini.

2018-06-13T18:08:38-03:0014/06/2018|Crédito&Cobrança|Nenhum Comentário
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