Será que o as empresas realmente podem contribuir para um mundo melhor? – PARTE II

O Ponto de Partida.

Na busca por respostas para a desconexão atual, é sempre bom olhar para o ponto de partida.

Em um texto importante do hinduísmo que data do século III ou IV dC, o Skandapurana, há quatro conceitos que seriam os principais objetivos da vida. O primeiro deles, e que talvez preceda os outros de acordo com diferentes interpretações, é o Dharma, a manifestação da natureza primordial de um indivíduo em uma vida virtuosa, ética e moral. O segundo conceito é Kama, e tem a ver com o prazer, como viver aproveitando, curtindo esta existência. Moksha, o terceiro, é a busca pela liberação das causas de sofrimento do mundo que conhecemos. E há um quarto, que interessa diretamente aqui: Artha.

É uma palavra que pode ter diferentes significados, dependendo do contexto, como sentido, objetivo, propósito ou mesmo essência, dentro de uma visão ampla acolhendo “meios de vida”. Na sempre simplista tentativa de sintetizar, podemos interpretar como os recursos materiais que são necessários à sobrevivência.

E o quanto é necessário para a sobrevivência? Uma pesquisa feita pelo Instituto Gallup com 1,7 milhão de pessoas em 146 países do mundo, descobriu que o indivíduo se considera satisfeito e pleno com um valor de 95 mil dólares anuais. Um dos autores do estudo disse à revista Fast Company no início de 2018 que o aumento dos níveis de felicidade tende a diminuir à medida que você ganha mais dinheiro. “Um aumento de 20 mil dólares de 30 mil para 50 mil vai fazer muito mais diferença do que se você ganhar mais 20 mil além dos 150 mil que já ganha”, disse à revista Andrew Tebb.

Uma pesquisa da New Economics Foundation chegou à conclusão de que para viver bem, as pessoas precisam estar:

  1. conectadas a outras pessoas;
  2. em constante atividade física;
  3. ter um bom nível de curiosidade;
  4. continuar aprendendo sempre e
  5. doar algo para as pessoas, mesmo que seja apenas uma hora de conversa.

Coisas simples do dia-a-dia. Nada no estudo falava em acumular coisas ou dinheiro.

Então, por que esta busca por lucros maiores e maiores, essa corrida para ter mais e mais coisas? Por que alimentamos um sistema que privilegia a busca incessante por lucro como uma tábua de salvação rumo à promessa de felicidade suprema? Por que palavras como produtividade, eficiência, agilidade e velocidade invadiram nossos vocabulários e moldaram nossas vidas sem nem percebermos?

Esse ensaio não é uma crítica ao ambiente e ao modo como vivemos. É uma reflexão sobre o quanto depositamos de esperanças e futuro e sobre a necessidade de buscar a inclusão e o pertencimento em coisas ou posses. E por que criamos vidas de individualidade isoladas em que moradores do mesmo andar em edifícios de grandes cidades não se conhecem, assim como há pouca relação entre os vizinhos?

De fato, hoje não precisamos da comunidade para suprir nossas necessidades. Está tudo à venda em um supermercado infinito de produtos e serviços. Em nossos primórdios como espécie nesta civilização, em algum momento desenvolvemos a possibilidade de nos conectarmos uns aos outros. Ao redor do fogo, um presente dos deuses para a humanidade já nos conta o mito de Prometeus, começamos a contar nossas primeiras histórias e criar laços de conexão e proximidade que geraram a possibilidade de nos unirmos em tribos. Em tribos, aumentamos nossa capacidade de enfrentar os perigos e com isso ampliar nossas chances de sobrevivência.

Os registros históricos mostram que essa organização em tribos nessa civilização nos ensinou a domesticar grãos por volta de 10 mil aC. Foi quando começamos a nos reunir em torno da comida, em vez de ter que ir atrás dela. Este foi o motivo da primeira explosão populacional da humanidade. Por volta de 6.500 aC, éramos 10 milhões de humanos.  No ano 25 dC, o Império Romano chegou a ter quase 60 milhões de pessoas. Havia mais pessoas para dar conta da produção de comida e também cada vez mais pessoas para consumir alimentos. Em função desse desafio de alimentar um número crescente de bocas, começou a busca por produtividade na Idade Média – já naquela época. Os seres humanos começaram a se unir em torno de fazendas. Grandes proprietários de terra já controlavam terras e também seus trabalhadores, começando o que é chamado de capitalismo agrário e o longo movimento de concentração de riqueza.

Buscando mais produtividade, o mercado de trabalho começou a emergir junto com a competição por melhores métodos e lucros. No início do século XVII, Londres era uma cidade grande comparada a outras, servida por um bom sistema de estradas, alimentando um grande mercado interno de mercadorias. Então veio o mercantilismo, com mercadores explorando terras estrangeiras, procurando mercadorias para trocar por lucros e buscando retorno sobre o investimento. Essa é considerada a base para a origem do capitalismo moderno.

Na sequência, veio a Revolução Industrial. Foi quando os altos lucros começaram a surgir, acelerando um processo de concentração de renda que teve início na revolução agrária. Novas empresas, empreendimentos e negócios de todos os tipos proporcionaram a expansão da riqueza.

O motor a vapor foi essencial para aumentar a produção das máquinas e a velocidade dos transportes

As empresas começaram a florescer com base nas necessidades das pessoas e uma série de líderes industriais começou a gerar muitos empregos. O capitalismo, como dito acima, proporcionou um aumento sem precedente dos padrões de qualidade de vida no mundo, com melhorias na saúde e educação das pessoas e muito mais oportunidades de desenvolvimento.

* * * FIM DA PARTE II * * *

Fonte: por Rodrigo Vieira Cunha* em 28.07.2018.

Clique aqui para ler a primeira parte: Será que o as empresas realmente podem contribuir para um mundo melhor?

Integra do artigo: http://bit.ly/empresasparaummundomelhor

* Estuda movimentos contemporâneos de evolução da humanidade para interpretar e compartilhar 
conteúdos em diferentes formas: palestras, textos, apresentações, artigos e conversas. 
É embaixador-sênior do TED no Brasil e sócio das agências de comunicação LiveAD e ProfilePR. 
Também organiza retiros sobre desenvolvimento de consciência com líderes de diversos países. 
Está escrevendo o livro "Humanos de Negócios". Está organizando o "Flow" – um festival para 
trazer ferramentas e aumentar o nível de consciência das nossas relações.

 

2018-08-07T15:21:52-03:0002/08/2018|Sustentabilidade|Nenhum Comentário
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