Economia Circular no contexto da Indústria de Crédito & Cobrança

 

No contexto das tendências de aumento populacional, crescimento da demanda e da consequente pressão nos recursos naturais colocam um desafio para as sociedades modernas evoluírem para um paradigma mais sustentável, uma economia mais voltada para a Ecologia, sem perder de vista o desenvolvimento econômico, a melhoria das condições de vida e de emprego, bem como a reconstituição do “capital natural”.

A filosofia e no ponto de vista preponderante atualmente são baseados em um modelo linear, que choca-se frontalmente com questões relativas à disponibilidade de recursos. Só em 2010 cerca de 65 bilhões de toneladas de matérias-primas entraram no sistema econômico a previsão e de que se atinjam os 82 bilhões de toneladas em 2020. Se esta matéria prima fosse transformada em água, ocuparia um cubo de 4.500 m de lado. Trata-se de um sistema que expõe empresas e países a riscos relacionados com a volatilidade dos preços das commodities e com o risco de interrupções de fornecimento.

Das jornadas solitárias de um veleiro, a pensadora Ellen McArthur, em que fez a mais rápida volta ao globo em 2005, pode ter nascido a inspiração para que lançasse um dos mais ambiciosos movimentos empresariais da atualidade. Em 2 meses e meio trilhou mais de 50 mil quilômetros, sem reabastecimento de combustíveis, de alimentos ou de água, presentearam-na com uma visão valiosa. A matéria prima, a energia e os recursos dos biomas do Planeta são ainda abundantes, mas finitos: se não forem usados de maneira racional, certamente se esgotarão. Entre 2005 e 2010 Ellen investiu seu prestígio e sua dedicação quase que exclusiva à causa, em encontros com lideranças empresariais e de ONG’s do mundo todo.

Fonte: Ellen Macarthur Foundation

Destes movimentos nasceu Fundação Ellen McArthur, que atualmente conta com o apoio mais de cem empresas globais do porte da Renault, Philips, e-Bay e IBM, e também por uma ampla rede de organizações de consultoria e pesquisa, incluindo diversas universidades espalhadas pelo mundo. O Brasil já conta com um escritório e recentemente foram realizados seminários na sede da Natura e na FEA/USP.

A conclusão chave que se pode obter é que a vida econômica contemporânea percorre etapas sequenciais: extrair, transformar, consumir e descartar. O desperdício que decorre deste ciclo até mesmo poderia ser absorvido em um mundo com dois ou três bilhões de habitantes: hoje, não mais.

Fonte: Agência para o Desenvolvimento e Coesão

Um impactante relatório da Fundação Ellen McArthur e da McKinsey sobre a economia europeia, de final de 2013 apontou que 60% dos materiais descartados pelos europeus são enviados a aterros ou incinerados. Ora, materiais e componentes correspondem a algo entre 40 e 60% do custo total da atividade industrial europeia. Os europeus importam 60% dos materiais e da energia que consomem. Portanto, a urgência com relação à melhoria em seu aproveitamento não é um tema “ambiental”, mas um imperativo econômico de sobrevivência. O preocupante é que a Europa é considerada mais racional que EUA e China em termos da racionalidade no uso de recursos naturais…

O relatório analisa três necessidades humanas básicas – mobilidade, alimentação e moradia – que correspondem a 60% dos gastos domiciliares e a 80% dos recursos consumidos na União Europeia:  o mau uso é generalizado. Com base neste diagnóstico, e imaginando que pode-se traçar um paralelo deste diagnóstico com o Brasil, pode-se delinear que ações a Indústria de Crédito & Cobrança (C&C) poderia tomar:

– O automóvel europeu, por exemplo, fica estacionado 92% do tempo. Em média, ao ser usado, somente 1,5 de seus cinco lugares é ocupado.

  • Incentivo e coordenação de programas de Carona Solidária; bônus financeiro a funcionários que provem utilizar transporte coletivo; programas de conscientização mostrando os benefícios para a saúde e para as finanças de se deixarem os carros em suas casas – são necessárias caminhadas e o valor dos desembolsos costuma ser bem menor. Neste último caso, para as empresas os dispêndios em saúde e com afastamentos de funcionários também devem ser menores.

Na alimentação, desperdiça-se fora não menos que um terço da produção.  Adicionalmente, não se pode separar a produção de alimentos das distorções em seu consumo: há um elevado custo social do sobrepeso e da obesidade na Europa.

  • As empresas podem dar o exemplo: algumas organizações incentivam seus colaboradores a empreenderem hortas orgânicas em seus espaços (jardins, terraços e mesmo no teto de edifícios). Também palestras e programas para alimentação saudável ajudariam nesta frente de mudança de mentalidade.

A operação da construção civil, também impõe custos relevantes  à sociedade europeia, que tem três expressões principais: desperdício de materiais e a baixa produtividade ; desocupação – cerca de 35% a 50% dos escritórios europeus permanecem sem uso; o processo de dispersão urbana também começa a ocorrer na Europa, apesar de sua tradição de cidades compactas – os custos de locomoção e da poluição decorrente e do aumento do preço do m2 e dos aluguéis trazem impactos imensos para toda a sociedade.

  • Creio que, pelo menos no estado de São Paulo, a indústria de C&C já contribua neste aspecto, já que muitas de suas sedes são instaladas nas regiões centrais das cidades ou em pontos chave do transporte coletivo, como estações de trem, metrô e terminais de ônibus.  O aproveitamento mais racional do espaço e do planejamento logístico também trará ganhos econômicos para o setor.

 

A economia circular tem a ambição de transformar este sistema para que tanto os insumos biológicos, como os minerais que compõem a riqueza sejam permanentemente não apenas reciclados, mas repensados e revalorizados nos processos produtivos. O início se dá por uma visão ética: os vários documentos lançados pela Fundação Ellen McArthur defendem uma economia menos danosa e regenerativa, tanto dos ecossistemas como dos agrupamentos sociais que têm sido sistematicamente predados pelas formas contemporâneas de se gerar riqueza. Um trabalho também recente, publicado sobre a Suécia, a economia circular é pontuada como um “sistema industrial restaurativo por intenção e por design”.

A novidade contida nesta orientação ética apresenta três vetores principais:

– Apoio em intenso uso de ciência e tecnologia com utilização de recursos aumenta e só a pesquisa em torno de energias renováveis, novos materiais e formas racionais de uso de solo poderá reverter esta tendência;

– A inovação tecnológica disruptiva, que supõe novos modelos de negócio em que o acesso se torna mais importante que a propriedade, e o compartilhamento passam a ser estimulados pelo próprio setor privado;

– Estimação e divulgação intensiva dos ganhos econômicos que a transição para a economia circular pode trazer. No caso europeu, se forem incluídas as externalidades, estes ganhos podem chegar a 1,8 trilhão de euros até 2030.

O Brasil e a América Latina se apresentam como grandes provedores das matérias-primas, cujo uso a economia circular tem como alvo a redução drástica. Parcela cada vez mais importante da inovação nos dias de hoje almeja justamente diminuir a dependência em que o sistema econômico se encontra de produtos primários. Não se trata de uma má notícia para nosso País: esta inconteste realidade abre oportunidade para o melhor uso dos recursos de que se dispõe. A economia circular dá um norte promissor para um crescimento mais robusto e sustentável para o Brasil, quando ela finalmente se estabelecer.

Fonte:  Prof. Marco Fattibene, mestre em engenharia de produção,   para o portal CollBusiness News, em 07.03.2018

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