Educação Financeira: um hábito

Para a grande maioria dos brasileiros é grande a dificuldade em manter em ordem as finanças pessoais e guardar o excedente (quando há) para realização de algum projeto pessoal. Normalmente o que se vê, quando falamos de planejamento financeiro pessoal, é que não há nenhum, exceto que o crédito que o cidadão tem, passa a fazer parte da sua composição salarial. Exemplo: o cidadão recebe R$1.000,00 e tem mais R$1.000,00 de crédito; ele começa a gastar como se recebesse R$2.000,00 criando e aumentando seu endividamento progressivamente. O que lhe faltou? Educação Financeira para melhor gerir seus recursos.

Estamos em um país onde o PIB per capita gira em torno de R$26.445,00 (Fonte: IBGE-2013) e este valor não se reverte em benefícios reais para a população. Somos a 6 ª economia do mundo e um dos poucos países que possui uma Estratégia Nacional de Educação Financeira (ENEF), mas estamos em 79º lugar no ranking do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano – ONU). Economicamente o Brasil está numa posição invejável; já pelo IDH está numa posição pífia.

Países como Austrália, Holanda, Reino Unido, Japão e Nova Zelândia não estão por acaso em primeiros lugares no IDH. Dentro os citados, destaco duas situações: a primeira é a dos Estados Unidos, cuja economia está em primeiro lugar no PIB mundial e, mesmo sendo grande consumista, tem um dos menores índices de inadimplência. Qual o segredo? Bem, nos EUA há um sistema que protege o credor: não existe parcelamento no crediário americano (se alguém compra determinada coisa em seu cartão de crédito, receberá o valor integral para pagar no mês subsequente). Além disso, se você não pagar o que deve, o bem (qualquer um, desde um simples eletrodoméstico, até casa e carros) é apreendido e leiloado para quitar a dívida. Diferente do Brasil em que há casos de parcelamentos de ‘até 12 vezes’ no cartão ou cheque, a apreensão de um carro pelo não pagamento de parcelas do financiamento causa estranheza.

A outra situação que destaco é a do Japão, cuja população tem o hábito de poupar tão enraizado que quase não há consumo interno. Constantemente o governo japonês convida e estimula, sem sucesso, a população a ‘quebrarem os cofrinhos’; o problema passou a ser a escassez de capital circulante na economia japonesa. Poupar foi a solução encontrada pelo Japão para sobreviver a derrota na 2ª Guerra e sair da crise econômica do pós, e o hábito da poupança estendeu-se para as gerações seguintes. Nota-se que a cultura e o comportamento que diferenciam os EUA e o Japão deixam países como o Brasil comendo poeira.

No Brasil sobra discurso e falta ação. O que esperar de lição de um país cujo governo não conseguiu fechar as próprias contas em 2014 e 2015? O que esperar de um país com tantas desigualdades sociais?  Que exemplo de educação financeira um governo dá quando não paga seus credores em dia, ainda que sejam suas próprias empresas? O que sabemos e colocamos em prática de educação financeira no dia a dia?

Enquanto há uma tendência internacional de incluir nas escolas programas de educação financeira, numa sociedade como a brasileira o estímulo consumista é maior do que a preocupação em lidar de forma consciente com as finanças. O brasileiro não compra pelo valor da mercadoria, ele compra pelo valor da parcela. Esquece que seu salário não tem o mesmo índice de reajuste que suas despesas fixas, e que estas vão ficando apertadas pelas ‘n’ prestações assumidas. Temos que considerar que sua matriz de consumo mudou, pois agora existem produtos que há 15 anos estavam restritos por questões físicas e econômicas: celular, internet móvel, TV a Cabo e Netflix. Olha aí o cidadão usando aquele crédito adicional ao salário sobre o qual falamos no primeiro parágrafo. Houve um grande estímulo para que se consumisse esses produtos, embora eles não fossem essenciais, mas a população não foi estimulada a estudar ou a capacitar-se melhor, aumentando suas possibilidades de sucesso profissional.

Temos dados alarmantes sobre educação, pois implica em baixa produtividade e perdas financeiras. Pesquisas do IBGE revelam que 70% da população brasileira economicamente ativa é de analfabetos funcionais. Analfabetos funcionais são profissionais que não compreendem sinais, manuais, instruções de segurança e higiene, procedimentos e normas técnicas e acabam negligenciando os valores organizacionais. Alguns fatores: baixa qualidade de ensino, pouco tempo de permanência na escola, falta de estimulo de leitura, desrespeito às habilidades inerentes do indivíduo. Falar em educação financeira e criar o hábito de poupar nessa camada da população torna-se uma quebra de paradigmas. Como ensinar a uma pessoa que não lê, porque não entende o que está escrito, conceitos econômicos do tipo: ‘o dinheiro não é neutro’, ‘poupar para ter’, ou ensinar, simplesmente, o que esta pessoa deve fazer para que o dinheiro que ganha trabalhe a seu favor, de forma que gaste menos que receba, e o que sobrar aplicar? Nesse aspecto, o termo ‘poupança’ é autoexplicativo, ainda que não seja das melhores formas de rendimento. Todo mundo sabe que ‘aplicar na Poupança’, ‘colocar na poupança’ ou ‘está na poupança’, é saber que se coloca para gerar mais renda, a parte dos recursos financeiros que não foi consumido no momento do recebimento e, por consequência, é guardado para ser utilizado em um momento futuro.

Para o planejamento financeiro dar certo é fundamental ter uma noção real do que se precisa (custos fixos). Manter suas contas em dia é tão importante quanto não contrair dívidas; só deveria se adquirir despesas se houver a certeza de que há uma fonte para quitar o débito. O que restar de salário, não deve parecer desanimador ainda que uma parcela pequena, pois será a alavanca da poupança em prol da realização do projeto.

É preciso aprender a exercitar o difícil equilíbrio entre o que se quer, o que se precisa e o que se gasta. Separar desejo de necessidade, traçar uma meta financeira (real), planejar cuidadosamente o que fazer para atingir essa meta. É preciso mudar um comportamento consumista e aprender a usar o dinheiro com responsabilidade.

É assim que se cria o hábito.

 

Joseane M Pacheco

Administradora de Empresas

Especialista em Capacitação Empresarial

Diretora da CollBusiness News e Diretora da 2J Consultoria

Membro do IBPDICC

 

2017-08-24T14:29:19+00:0023/08/2017|Capital Humano|Nenhum Comentário
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