Fintechs driblam desafios para atender população de baixa renda

Em bairros da periferia, uma cena parece comum: pessoas com boletos à mão, em filas de casas lotéricas para saldar débitos em espécie. Retrata a falta de relacionamento do público de baixa renda – que ganha até um salário mínimo e representa cerca de 60% dos brasileiros, segundo o IBGE – com instituições bancárias. Fatores como falta de confiança e dificuldade de acesso ao crédito abrem espaço para a atuação das fintechs de cunho social, startups que aplicam alta tecnologia em soluções do setor monetário, para promover a inclusão dessa camada da população aos serviços financeiros.

Estudo inédito feito pela Artemisia (organização sem fins lucrativos que trabalha no fomento de negócios de impacto social no Brasil) e pela Aspen Network of Development Entrepreneurs (rede internacional de organizações que promove o empreendedorismo em países em desenvolvimento), a Tese de Impacto Social em Serviços Financeiros mostra que as fintechs podem gerar efeito em diversas frentes, como reduzir o custo de transações financeiras, promover oportunidade de desenvolvimento, ofertar possibilidades de aumentar a renda, reduzir a condição de vulnerabilidade e fortalecer cidadania e direitos individuais.

 KeroGrana. Guilherme de Almeida Prado

KeroGrana. Guilherme de Almeida Prado, fundador da fintech que concede empréstimo online. Foto: Tiago Queiroz/Estadão Foto: Tiago Queiroz/Estadão

As fintechs de cunho social se enquadram em um universo de startups que está se expandindo. O Brasil é considerado o maior hub de fintechs da América Latina, segundo dados da Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs), com cerca de 400 empresas mapeadas, com maior concentração no Sudeste (58%). Seu crescimento se tornou ainda mais evidente a partir do ano passado, quando as atividades foram regulamentadas pelo Conselho Monetário Nacional e também com o programa BC+, do Banco Central, com foco na inovação. E se dividiram em segmentos de atuação como meios de pagamento (25%), crédito (21%) e gestão financeira (8%).

De acordo com o estudo da Artemisia, essas empresas de cunho social lidam com vários desafios, como a falta de relacionamento com os bancos. Segundo pesquisa feita pelo Plano CDE (empresa de pesquisas especializada nas classes C, D e E no Brasil), 57% das pessoas de baixa renda possuem uma conta bancária e, destes, somente 7% utilizam esse recurso mais de uma vez por mês. “As pessoas têm a conta corrente ou poupança somente para receber seu salário. Ainda existe a forte premissa de pagar seus compromissos em espécie”, explica Maure Pessanha, diretora executiva da Artemisia e colaboradora do Estadão PME.

Os dados demandam atenção: 34% da população brasileira ainda recebe salário em espécie e grande parte desse montante é da baixa renda, segundo dados do BC que fazem parte do estudo da Artemisia. Nesse estrato social, há a preferência por se pagar boletos em lotéricas ou agências dos Correios, mas, aponta Maure Pessanha, os pontos financeiros estão diminuindo por conta da violência na periferia. “Isso vai quebrar o muro que ainda existe para a utilização de dispositivos em transações financeiras”.

Crédito. Outro impacto dessa falta de um score positivo com os bancos é o acesso ao crédito. Os dados são alarmantes: mais de 80% das pessoas das classes C, D e E nunca tiveram acesso ao crédito, diz o estudo. Acabam fazendo empréstimos informais ou recorrem a financiamentos de cartões de loja (16%) ou cartão de crédito (11%), conforme o BC. Um dos resultados é o endividamento – hoje, 41% dos adultos no Brasil estão negativados, diz o Sistema de Proteção ao Crédito (SPC).

Diretora da ABFintechs, Ingrid Barth afirma que esse vácuo traz oportunidade para as fintechs, já que mais de 80% da população de baixa renda têm um smartphone, segundo o IBGE, mas que ainda não é instrumento para serviços financeiros. “Trabalhando com o microcrédito, as startups têm um poder gigante de mudar a vida das pessoas e também das microempresas.” O fato de não terem agências físicas faz com que as fintechs levem custos menores aos usuários.

Oportunidades. Para Edgard Barki, professor da FGV-EASP e coordenador do FGVCenn (Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios), no entanto, somente a tecnologia não será um fator de sucesso. “O relacionamento com o público é fundamental, pois essa camada da população não se sente parte do sistema financeiro. Não adianta a fintech estar na Avenida Paulista e achar que suas premissas são sempre válidas. É crucial que suas equipes vão a campo para entender a dinâmica do público.”

Na visão de Guilherme Horn, head de inovação da Accenture (empresa global de consultoria e gestão), a digitalização vai quebrar paradigmas com a baixa renda. “O digital vai permitir que as pessoas tenham uma wallet (conta digital) ou cartão pré-pago, instrumentos com os quais ela poderá fazer o pagamento de suas contas e movimentar dinheiro sem alto custo.”

Porém, o caminho ainda é longo. Há o desafio da credibilidade, cuja barreira deve ser quebrada nos próximos anos. “As fintechs de vocação social terão que buscar reconhecimento e confiança no mercado de baixa renda. E isso leva tempo e muito investimento em educação financeira e comunicação”, diz Horn. Confira abaixo exemplos de fintechs de impacto social.

Guilherme de Almeida Prado também trabalha com empréstimos online para empreendedores. Foto: Tiago Queiroz/Estadão Foto: Queiroz/Estadão

KeroGrana: Empréstimos online inclusive para negativados 

Criada em dezembro, a KeroGrana nasceu para oferecer empréstimo online para a população de baixa renda, com foco nas mulheres. “Hoje, 85% das pessoas das classes C, D e E não têm salário de reserva, o que faz com que, em caso de imprevisto, precisem de dinheiro para pagar os compromissos”, diz Guilherme de Almeida Prado, fundador da fintech. Recentemente, a empresa fechou parceria com o banco CBSS para ampliar a oferta de crédito. Com isso, a meta é conceder R$ 50 milhões em empréstimos ainda neste ano.

Para Prado, a experiência de pedir um empréstimo para uma instituição financeira é mais desgastante para a população de baixa renda. “As pessoas vão de banco em banco tentar o crédito e recebem negativas. A experiência online permite que se faça o pedido sem constrangimento”, diz Prado, criador também da Konkero, fintech com dicas de finanças pessoais que já foi acelerada pela Artemisia.

Com a KeroGrana, a ideia dele é tratar todo mundo como cliente, inclusive os negativados. Para isso, a empresa investe em iniciativas como a produção de conteúdo específico para ajudar as pessoas a terem mais chances de aprovação. “Nos próximos meses vamos lançar um curso de finanças pessoais para ajudar a população.”

Blu365. Alexandre Lara ajuda clientes a reduzirem suas dívidas por meio da startup. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Blu365: Negociação de dívidas para ficar 365 dias no azul 

A experiência no mercado financeiro foi o gatilho para o empresário Alexandre Lara e seus sócios criarem a Blu365, há cinco anos. Como o nome sugere, a meta da empresa é deixar as pessoas com suas finanças no azul durante os 365 dias do ano. “Nós tínhamos o entendimento sobre as dificuldades das classes C, D e E em relação à inclusão financeira. Com a compreensão da raiz de seus problemas, podemos ajudá-las a liquidar suas dívidas”, conta Lara.

A empresa trabalha com a renegociação de dívidas das pessoas junto a empresas como bancos, escolas, lojas e outras, oferecendo pagamentos com descontos e parcelamento do débito. Com uma base de dados que soma 20 milhões de usuários, a Blu365 tem taxa de 10% a 14% de negociações concluídas com sucesso.

Para ajudar os cidadãos de baixa renda, a empresa oferece ainda o programa Renda Extra, que consiste em uma parceria com empresas como Uber, 99 e Dog Hero para oferecer à população possibilidades de trabalho. “São alternativas para que eles tenham recursos financeiros para ficar no azul”, acrescenta.

O serviço oferecido pela Blu365 é gratuito à população e custeado pelas empresas credoras, como Itaú e Casas Bahia. A intenção é atingir 27 milhões de clientes até o final deste ano e registrar um crescimento de 35% nas operações da empresa.

MGov. Rafael Vivolo criou empresa que utiliza inteligência artificial para produzir diversos tipos de produtos. Um deles é o envio de SMS com dicas de planejamento financeiro. Foto: Marco Torelli

MGov: Envio de SMS com dicas para a saúde financeira 

Criada em 2012, a MGov Brasil desenvolve soluções escaláveis e replicáveis de avaliação, monitoramento e engajamento para apoiar políticas públicas e ações de impacto social. Segundo Rafael Vivolo, fundador da empresa, o trabalho baseia-se na economia comportamental, com a utilização de bots – robôs virtuais – e inteligência artificial para capturar informações e traçar os perfis de comportamento. A partir daí, desenvolve conteúdo financeiro focado.

Um dos produtos é o Poupe Mais, que oferece o serviço de SMS com informações relevantes e sugestões de atividades diárias que permitam alcançar um melhor planejamento financeiro. “Nossa intenção é ajudar as pessoas a terem um bom relacionamento com o crédito e a usá-lo de forma consciente. E, se ele não for educado nesse sentido, não obterá um bom resultado.” Com equipe formada por 25 funcionários, a MGov atua para órgãos governamentais e empresas, das quais pessoas de baixa renda são clientes. De acordo com Vivolo, a intenção é crescer 200% em 2019 e ampliar a base de usuários de 200 mil para 1 milhão de pessoas. E está de olho no mercado internacional. “Chegou a hora de escalar os produtos.”

MEI Fácil. Marcelo Moraes, Gislaine Zaramella e Rodrigo Salem, fundadores da empresa. Foto: Marco Torelli

MEI Fácil: Ajuda na gestão de MEIs, do CNPJ á emissão de notas

Focada em auxiliar os microempresários a se enquadrarem no regime MEI, a MEI Fácil presta diversos serviços, desde o auxílio na obtenção do CNPJ e na solução de burocracias à gestão de recebimentos. “Nosso intuito é trabalhar a inclusão financeira para que eles possam ter acesso ao crédito e alavancar seus negócios. Mais de 90% dos nossos clientes nunca tinha emitido um boleto”, conta Rodrigo Salem, fundador da fintech.

Com base de mais de 370 mil usuários em todo o País, a empresa pretende incrementar os serviços. “Queremos aumentar a oferta de máquinas de POS e o leque de alternativas de recebimento, além de criar uma wallet conta digital) que permita a ele movimentar seu dinheiro.”

Fonte: por Júlia Zillig, especial para o Estado de S.Paulo em 27.02.2019

Artigo recomendado por Julia Drezza, gestora de sustentabilidade da Mais Fácil.

2019-03-06T20:48:44-03:0001/03/2019|Fintech, Projetos Sociais|Nenhum Comentário
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