Entrevista originalmente publicada no Portal Risco & Recompensa, http://www.riscoerecompensa.com.br/entrevista/2016/06/06/Luciano_Basile_Varias_empresas_de_Cobranca_ja_estao_pedalando.aspx, no dia 06/06/2016

 R&R: Como o Sr. avalia o atual momento econômico do Brasil no que se refere aos índices alarmantes de inadimplência e o pífio crescimento das concessões de crédito?

LB: O setor colhe os efeitos da crise. O Brasil passa por duas crises. Uma política cujo final vai encontrando seu rumo. E uma econômica. Que está longe de ser vencida. Em 2008 ainda no Governo Lula optamos por vencer a crise internacional abrindo as torneiras do crédito. Todo o sistema financeira acabou envolvido. Os bancos púbicos foram usados para alavancar esta política. Desde esta época as classes C, D e E se endividaram a níveis hoje estratosféricos. O Governo seguinte aprofundou a política e chegamos aos níveis alarmantes de hoje. O crédito não cresce pela pequena oferta, mas também por falta de tomadores. As famílias brasileiras estão totalmente tomadas. É fato.

R&R: Dentro deste cenário como ficará a situação das empresas que trabalham nestes segmentos?

LB: Não acredito em recuperação rápida. As empresas de cobrança que teoricamente se beneficiariam desta situação vivem o paradigma de excesso de estoque, baixa recuperação. Se de um lado temos estoques elevados, também temos custos mais altos para movimentar esta carteira e os níveis de recuperação são baixos. O inadimplente só voltará a pagar suas dívidas quando enxergar perspectivas de voltar a comprar. Também é uma questão de prioridade. Para 13.000.000 desempregados é uma questão de sobrevivência. Enquanto a população não tiver a percepção de que o viés de desemprego virou, que o número de desempregados parou de crescer, pouca coisa mudará. Diante deste cenário as empresas deverão buscar soluções e processos inovadores. É uma questão de sobrevivência. Devem se preparar sim, para o “day after” a este momento. Como crise é mãe da inovação, já temos os dois modelos coexistindo. A velha cobrança baseada no esforço centrado em PAs e recursos humanos de baixo custo, em geral o primeiro emprego e a nova cobrança, digital por excelência. Hoje neste cenário temos 80% da velha cobrança ocupando o mercado x 20% de operações por canais eletrônicos. Estamos chamando estes 20% de cobrança digital, mas em minha opinião estamos longe disso. Enviar um SMS ou um e-Mail não significa nada se isto não vier acompanhado de interatividade.

R&R: Há risco de “quebradeira”?

LB: Há. Quem estava mal, piorou. Já temos notícias de diversas empresas “pedalando”. O setor não sabe medir seus custos. Não sabe valorar seus serviços. É desunido. O modelo de negócio baseado em “success fee” é totalmente ultrapassado. A soma desses fatores que são anteriores a crise levará como consequência a uma grande quebradeira do setor. O número de empresas atuando no setor é estimado entre 12.000 e 35.000. Acredito que 50% delas sobrevivam. Um caminho será o de fusão. Apesar de faltar maturidade para isto. As maiores empresas do setor também sofrerão. Se eu estiver certo, não precisaremos mais de empresas de 3.000, 5.000, 10.000 posições. O Digital iguala tudo e da oportunidades a todos.

R&R: Elas não se prepararam para esta crise?

LB: As empresas do setor sempre se moveram por cobrança de seus contratantes. Se o contratante apontava uma direção ela tentava ir nesta direção. Mas nada que se baseasse em um projeto de crescimento sustentável.

R&R: O Sr. tem sido um crítico severo do comportamento das empresas de recuperação de crédito, por considerar que elas não são proativas. O Sr. pode detalhar um pouco mais esta opinião?

LB: Realmente. Vivo neste mercado desde 1983, quando entrei no Grupo Unidos como Diretor de Tecnologia e desenvolvi a primeira solução de cobrança do país. Quando digo desenvolvi é apenas a constatação de um fato. Desenhei o projeto e escrevi a maior parte do código. Fui alicerce do crescimento da Empresa e arauto da derrocada que estava por vir. Saí do GU e fundei minha Software House (1993) e provemos solução para centenas de empresas de cobrança. Criei o primeiro software de cobrança com processamento na nuvem do mundo. E a primeira plataforma para abrigar empresas de cobrança. Sempre trabalhei com inovação em um mercado fortemente conservador. Sempre fui dentro do GU o defensor de posturas éticas, de avanços sustentáveis, de respeito aos profissionais que trabalham na PA, de um trabalho baseado em Planejamento. Passado todo este tempo vejo ainda um cenário árido e resistente a inovação, aos processos de qualidade, a um tratamento correto dos colaboradores. As empresas ainda não sabem precificar seus serviços, causa mãe de todos os seus problemas. Não gerenciam seus estoques, não sabem quantos títulos entraram ontem e qual o seu valor. Só que agora a crise é esperança de mudanças. O novo competidor no cenário é uma Start Up 100% digital, ágil, de baixo custo, totalmente baseada em inteligência (BI). Antes o setor competia entre si, perpetuando a más práticas. Agora seu concorrente é outro. Que pode ser até o seu fornecedor atual.

R&R: Já há algum tempo não há inovação no mercado de gestão de risco. A que fatores o Sr. atribui esta inércia?

LB: Como disse anteriormente as empresas do setor só se movimentam estimuladas pelos seus contratantes. Inovação não é um objetivo a ser alcançado. Recentemente em um encontro de empresários eu disse que a última grande inovação no setor foi trocar a ficha de papel pela ficha na tela do computador. Em geral todo mundo investe, mas é um investimento faz de conta. São mudanças para que nada mude. Primeiro vieram os CRM, mas as empresas não entenderam que deviam gerenciar o relacionamento. Vieram os discadores. Quem não usasse estava fora do mercado. Mas a implementação do discador não veio acompanhado de uma gestão efetiva de telecom. Todos compraram BI (Business Inteligence) mas ou compraram gato por lebre (relatórios planos) ou falta conhecimento para ver os que os números dizem e traduzir isto em ações concretas. Agora rumamos para o digital sem nos dar conta da diferença em ser digital ou analógico. A inércia se dá por falta de conhecimento!!

R&R: Durante anos o Sr. tem, persistentemente, liderado movimentos visando uma maior conscientização e envolvimento dos profissionais que atuam nesta área. Obteve sucesso nesta empreitada?

LB: Sou um evangelizador por natureza. Evangelizadores são persistentes. Fiz a transição do mercado, de um mercado “marginal” no sentido da palavra para um mercado de reconhecida importância. Não existe crédito sem cobrança. A recuperação do crédito tem a função social de manter os mercados sadios. Eu acredito na força transformadora do conhecimento, da tecnologia, e das pessoas. Se juntamos conhecimento, tecnologia e pessoas preparadas com certeza mudamos o eco sistema em que vivemos. A empreitada ainda não acabou, mas olhando para trás posso dizer o quanto este mercado mudou. Hoje a Indústria de Recuperação de Crédito é outra, assim como as pessoas (entre 700.000 e 1.000.000) que fazem parte dela. Contribuí para estas mudanças, liderei muitas dessas mudanças. Olhando por esta ótica, sim tive sucesso.

R&R: Que recomendação o Sr. daria para os pequenos e médios empresários que precisam de crédito para alavancar o seu crescimento mas estão travados por conta de critérios mais restritivos na concessão?

LB: Eu sugeriria a eles neste momento, prudência e inovação. Fazer mais com menos. E investir parte de seus ganhos no próprio negócio. Não é fácil. Exige abrir mão.

R&R: O Sr. acabou de fundar o IBPDICC – Instituto de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação em Crédito e Cobrança. Qual será a área de atuação?

LB: O IBPDICC (Instituto Brasileiro de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação em Crédito e Cobrança) vem preencher uma lacuna no cenário associativa da Indústria de Cobrança. O IGEOC é uma iniciativa vencedora, mas ao alcance da ponta superior da Indústria. Mas sua contribuição é sem dúvida digna de um estudo mais apurado. É meu benchmarking.  Temos outras iniciativas, como a ASERC e o IBEGI. Cada uma delas tem seus objetivos próprios.

Nosso Instituto nasce com objetivos bem definidos nas letras PDI (Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação). Vamos desenvolver projetos de certificação de qualidade, de treinamento e capacitação de recursos humanos. Estudos sobre precificação dos serviços.  Desenvolver tecnologias para o setor. Pretendemos ser um terreno fértil as fusões. Promover congressos. Tudo voltado ao crescimento das empresas associadas, da Indústria de Cobrança em Geral e do País.  

R&R: Como funcionará e de que modo os associados se beneficiarão da criação do Instituto?

LB: Temos uma sede nacional em Minas Gerais. Criaremos sub sedes regionais, de forma a tornar ágil e próxima do associado a gestão. Já formamos Grupos de Trabalhos com o Intuito de estudar, desenvolver e promover o desenvolvimento tecnológico das empresas associadas. Buscamos o fortalecimento do setor através de ações concretas junto a comunidade. Iniciativas como Educação Financeira serão estimuladas. Os associados se beneficiarão a medida que aderirem aos projetos em desenvolvimento. Isto se dará pela Capacitação dos Recursos e o consequente aumento de Capital Intelectual nestas empresas. Na melhoria das soluções tecnológicas em uso, uma vez que fazem parte do Instituto, empresas desenvolvedoras de tecnologia para o setor. Promover FIDCs para a compra conjunta de carteiras. Talvez a criação de uma cooperativa de crédito para os associados. Enfim .. não faltam ideias e motivação. Tudo com o objetivo de fortalecer o nosso associado e consequentemente a Indústria em que nos inserimos.

R&R: Com este movimento o que o Sr. espera como reação dos diversos players deste mercado?

LB: Acredito que o mercado é múltiplo e diversificado. E mal explorado. Todos buscam peixe nos mesmos aquários. Eu acredito na teoria de Marketing do Oceano Azul, Ir pescar onde ninguém está pescando. Talvez ocorra a migração de associados de uma ou outra associação para o nosso Instituto. Mas nascemos para ser grandes. Com personalidade própria. Com uma missão própria. Vamos encerrar este ano com 100/150 associados. Esperamos dobrar em 2017 e dobrar novamente em 2018. Existe uma grande demanda por entender tecnologia e como ela pode mudar o seu negócio. Por inovar e por melhorar as práticas empresarias de uma forma geral. É nesta direção que pretendo conduzir o IBPDICC com a ajuda de minha Diretoria. Da mesma forma no momento oportuno pretendo conversar com os outros players do setor. Tenho bom trânsito na Indústria. Acredito que cada uma das representações do mercado tem um papel importante no mercado.

R&R: Há uma luz para as empresas que atuam no segmento de recuperação de crédito?

LB:  Claro que sim. Sem cobrança, não há crédito. E sem crédito não tem desenvolvimento. É claro que o momento é de mudanças e mudanças trazem inquietações. Nos tiram de nossa zona de conforto. Mas também trazem inovação, melhores práticas, crescimento pessoal e empresarial.