Momento é propício para reduzir spread bancário no Brasil

Apesar da queda da taxa Selic, custos do setor ainda estão entre os maiores do mundo.

A taxa Selic, índice que regula os juros básicos da economia brasileira, caiu para 5,5% em setembro de 2019, mantendo-se há meses no patamar mais baixo da História. Projeções do mercado indicam que ela pode chegar a 4,5% até o fim do ano. Entretanto, o spread bancário, a diferença entre esse indicador e o custo final do crédito para pessoas físicas e jurídicas, não recua no mesmo ritmo e continua a ser o segundo mais alto do mundo. O que afinal estaria impedindo esta queda?

Para o presidente executivo da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Murilo Portugal, o Custo Brasil é o principal responsável pelos preços dos serviços bancários, entre eles o crédito, como acontece com muitos outros produtos de alto valor agregado no país. Mas, segundo ele, o Brasil vive um momento propício a virar esse jogo, desde que as instituições mantenham a disposição de melhorar o ambiente de negócios, enfrentando os obstáculos que impedem uma queda maior nos juros.

— Quando o preço do aço cai 61%, o preço do automóvel não cai 61% porque, além do aço, o automóvel tem plástico, borracha, tecnologia e outros custos. Com o crédito acontece a mesma coisa. Além da Selic, que afeta um componente, o custo de captação, os juros cobrem outros custos, como a inadimplência, os impostos e as despesas operacionais — disse Murilo Portugal, durante o seminário “Precisamos falar sobre juros”, realizado pela instituição e pelos jornais O GLOBO e Valor Econômico no dia 9, no Rio, com mediação da jornalista Flávia Oliveira.

O executivo lembrou ainda que o Brasil é um dos poucos países do mundo a tributar indiretamente os custos do crédito, com taxação de 4,65% de PIS/COFINS e o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), que pode chegar a 3,8%, e destacou também a baixa taxa de recuperação em casos de inadimplência como outro fator de forte impacto nos custos. Apenas 14% do valor emprestado seria recuperado, com um prazo médio de quatro anos, e 12% do total recuperado gasto no próprio processo de recuperação. O presidente da Febraban alertou que só a concorrência não basta para fazer o spread bancário cair porque a maior parte do valor cobrado em juros não fica com os bancos.

— Segundo dados do próprio Banco Central, de cada R$ 100 pagos de juros, apenas R$ 9 ficam com o banco, o restante é gasto remunerando o dono do dinheiro emprestado, pagando impostos e os custos associados com inadimplência, compulsórios e despesas operacionais, entre outros — ressaltou Murilo Portugal.

Questões estruturais

O professor do Departamento de Economia da Universidade de São Paulo (USP) Márcio Nakame, que desenvolve estudos sobre a competição bancária, concorda que as questões que causam a demora para reduzir o spread são estruturais. Para o economista, é necessário estudar mais o funcionamento do mercado no Brasil, para atuar de forma mais precisa.

— É preciso olhar temas específicos do segmento. A gente ainda tem poucos estudos. Em relação à inadimplência, por exemplo, estimamos que afete em 25% a 30% o custo do crédito — afirmou, acrescentando que é preciso melhorar o acesso aos dados concentrados no Banco Central (BC), respeitando ao mesmo tempo a legislação de sigilo bancário.

Na opinião do presidente do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), Sergio Werlang, professor da Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getulio Vargas, os depósitos compulsórios extremamente elevados também ainda afetam de forma determinante o custo do crédito no Brasil.

— A atual regulação foi uma escolha consciente de que precisávamos ter um sistema bancário resiliente. A crise de 2008 mostrou que foi acertada — avaliou o economista, sinalizando que o Brasil deve acompanhar os novos ventos de mudanças.

Para Werlang, o setor está prestes a sofrer uma mudança dramática a partir do fenômeno “Open Banking”, que começou na Inglaterra há três anos e está se expandindo para a Austrália e a Zona do Euro e deve chegar ao Brasil em breve.

— Além de mais instituições, concorrência significa mais acesso aos dados dos clientes. Quando a instituição financeira conhece o cliente dela, ela pode dar melhores condições para ele. Na Inglaterra, a estimativa é que o spread seja reduzido em 30% com isso — avaliou.

Modernização trará benefícios ao setor

Competição não é um problema para o setor bancário no Brasil, na opinião do economista–chefe da Febraban, Rubens Sardenberg, mas a modernização regulatória precisa ser realizada, para que o futuro do crédito possa se delinear com maior clareza e segurança para todos. Ele destacou o papel das fintechs, startups de tecnologia voltadas aos serviços bancários.

— As fintechs são muito bem-vindas. Há espaço para todos. Mas elas também vão se deparar com os mesmos problemas que os bancos. Só um bom ambiente regulatório e a boa execução de garantias vão permitir taxas mais baixas para todos. Se os juros caírem, as pessoas poderão tomar mais crédito, com custos mais baixos, por prazos maiores — avaliou.

Ao falar sobre concentração bancária, Sardenberg citou o exemplo da Austrália, que tem maior índice do que no Brasil e o spread é mais baixo, e o do Chile que, além de juros baixos, consegue rentabilidade maior para as instituições financeiras.

— Temos um mercado de crédito no Brasil de R$ 3,3 trilhões, 50% do PIB, com bancos muito bem regulamentados — concluiu.

O ex-diretor do Banco Central e chefe do Centro de Estudos Monetários da Fundação Getulio Vargas (FGV), José Júlio Senna, também destacou a necessidade de modernizar o ambiente regulatório e manifestou preocupação com a insegurança jurídica em relação à execução de garantias, que impacta fortemente os custos de inadimplência.

— Por conta da nova lei de abuso de autoridade, juízes não estão executando garantias, o que é extremamente preocupante — relatou.

O economista avaliou que as fintechs têm um aspecto importante na modelagem do futuro do setor bancário e lembrou como o surgimento de novos atores ajudou a mudar o cenário no passado.

Para a sócia da consultoria PWC e líder do escritório do Rio de Janeiro, Claudia Eliza Medeiros, estamos diante de uma grande janela de oportunidades.

— A revolução digital é importante porque reduz os custos e aumenta o acesso à informação. O Banco Central já soltou regras regulamentando sociedades de crédito direto, dando espaço para as fintechs — explicou.

A economista ressaltou ainda que o Brasil tem 45 milhões de pessoas sem conta em banco e acesso ao crédito, o que representa um mercado de R$ 800 bilhões, que deve ser fortemente impactado pelas novidades.

— Na China, por exemplo, não existe cartão de crédito, mas as pessoas não usam dinheiro. Usam o celular. Enquanto isso, sete em cada dez brasileiros usam dinheiro vivo no Brasil. Isso vai mudar — concluiu.

Fonte: por Agência O Globo, em Época Negócios, em 14.10.2019.

2019-10-16T18:09:15-03:0018/10/2019|Notícias|Nenhum Comentário
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