A pandemia vai deixando um rastro de destruição. No mercado financeiro, a queda de preços de ativos e a consequente destruição de riqueza implica sérios riscos ao funcionamento do mercado de crédito. Daí a ocorrer um expressivo contágio financeiro na economia é um passo.

O Banco Central tem reagido tempestivamente, com foco em medidas para destravar o mercado e, corretamente, menos ênfase na Selic.

Zeina Latif

Em que pese os indicadores bancários estarem sólidos, uma crise prolongada pode reverter este quadro.

Não será possível reverter a implosão no valor dos ativos, ou mesmo evitar perdas futuras, pois a crise não bateu no fundo do poço. No jargão do mercado, ela não foi ainda plenamente precificada.

Não se sabe a duração do confinamento, o tamanho da recessão e a capacidade de recuperação da economia adiante, que não será rápida – diferentemente da crise de 2008, quando países emergentes tiveram recuperação em “V”.

Nem seria papel do BC evitar as perdas do mercado, ainda que suas ações possam contribuir para isso indiretamente. Os preços de ativos precisam encontrar seu equilíbrio à luz do cenário de um país mais pobre.

No entanto, cabe ao BC limitar as consequências dessas perdas para o funcionamento do mercado de crédito e, portanto, para a economia. A crise exige postura vigilante, pois os problemas surgem em cadeia.

As ações anunciadas pelo BC poderão ter impacto equivalente a 32,5% do PIB (na crise de 2008, foram 3,5% do PIB). Elas envolvem, basicamente, liberar capital aos bancos e injetar liquidez no sistema. Busca-se facilitar e ampliar o escopo para a captação de recursos pelo bancos diante das dificuldades impostas pelas perdas no mercado; e prover liquidez em canais específicos.

Na caixa de ferramentas, muitos instrumentos estão sendo utilizados, indicando o esforço para identificar os pontos de estresse. Há desde os mais convencionais, como a redução temporária de compulsórios sobre depósitos a prazo, como os mais modernos, como a compra de letras financeiras emitidas pelos bancos e também de debêntures corporativas (empréstimos lastreados nesses papéis) para prover liquidez e, assim, facilitar novas emissões.

O BC está atuando para atenuar a contração do crédito, mas a efetividade de suas ações enfrenta limites em uma economia machucada e com risco de crédito tão elevado que desestimula mesmo bancos líquidos a conceder empréstimos. Certamente, por reconhecer isso, o BC utiliza um arsenal amplo de medidas.

Ainda assim, muitas empresas de menor porte ficarão à margem das medidas, pois não têm acesso ao crédito. Outras iniciativas governamentais são necessárias para haver capilaridade na oferta de crédito.

Do lado monetário, cortes adicionais da Selic teriam baixa eficácia. Não faria sentido usar outra bazuca nessa frente, exceto se houvesse muita gordura pra queimar na política monetária.

Mesmo com o corte da Selic, o quadro de incertezas pressiona as taxas de juros longas e o custo do dinheiro. Aliado ao elevado risco de crédito, os spreads bancários aumentam.

Isso significa que os canais de transmissão do estímulo monetário sobre a economia estão obstruídos. Desbloquear o canal do crédito exige outros instrumentos, como esses acionados pelo BC.

Nem mesmo o canal de expectativas está funcionando. De que adianta cortar a Selic, se a cada dia surgem noticias de agravamento da crise, com o rápido aumento do número de contaminados e o risco de um maior período de confinamento?

Parece mais sábio guardar alguma munição para o futuro, depois de passada a fase mais crítica de incertezas, quando o corte de juros será mais efetivo para recuperar a economia.

A aplicação na ponta do lápis do regime de metas de inflação também perde seu propósito no curto prazo. Sequer saberemos ao certo a verdadeira taxa de inflação, pelas dificuldades de coleta de preços e pela grande dispersão de preços que ocorrerá entre as diferentes regiões e até áreas de um mesmo centro urbano. Remarcações abusivas de preços de bens básicos na periferia serão inevitáveis diante das dificuldades de abastecimento.

O momento agora é de prover retaguarda ao sistema crédito para conter o contágio financeiro na economia. A eficácia das medidas, porém, dependerá do sucesso do governo nas demais frentes de batalha.

Fonte: por Zeina Latif* para Brazil Journal, em 23.03.2020.

*Consultora Econômica.