O Feitiço do Tempo…

Há um filme que gosto muito e que deve ter mais de 20 anos…, ‘O Feitiço do Tempo’. Nele, o personagem, um arrogante meteorologista de um canal de televisão, fica preso em uma espécie de túnel do tempo, condenado a reviver indefinidamente o mesmo dia até que mude suas atitudes. Como nenhuma mudança ocorre no personagem, todo novo dia é exatamente igual ao dia anterior e como decorrência, surgem problemas e situações embaraçosas.

Como a coluna não é de cinema, muitos, ou todos, perguntarão as razões de iniciar um texto que fala de cobrança com esta informação, aparentemente de cunho pessoal. Ocorre que vejo similaridades entre o momento atual de cobrança e o enredo do filme (aliás, recomendo que vejam).

Tenho lido e relido artigos, matérias, ouvido comentários, os mais diversos sobre os caminhos da cobrança e invariavelmente todos batem na mesma tecla: é preciso mudar para não sucumbir. Perfeito! Todos diagnosticamos o mesmo mal.

Talvez, remando contra a maré e correndo o risco de desagradar a todos e, inclusive, fazer uma avaliação indevida, penso que as diversas soluções que rondam o mercado, não ajudarão a resolver o problema.

Não pretendo me alongar ou detalhar tais soluções; estas já estão na “boca do povo” há algum tempo. O fato, resumidamente, é que temos dado muita atenção – como solução do problema –  a aspectos como inteligência artificial, redes neurais e plataformas digitais, todos itens de extrema importância, porém, em meu entender, apenas acessórios – uma adaptação da cobrança aos novos tempos.

Muito pouco se fala de inteligência humana, aliás, quase nada e aí, em meu entender, reside o ponto central da questão. Back to the basics:  o que cobrar, como cobrar e quando cobrar! Elementar, simples, óbvio e primitivo, todos dirão. Verdade que não permite qualquer contestação; é a gênese da cobrança. E já que estamos falando de filme, diria Jack Nicholson no filme ‘Uma Questão de Honra’: “Clear like crystal”. Quantos, entretanto, praticam isso usando um adequado planejamento como um instrumento eficaz de cobrança?

Nas minhas andanças como consultor ao longo dos últimos 20 anos, vi e avaliei áreas de planejamento de assessorias de cobrança e de instituições financeiras de todos os portes. Sendo generoso, poderia chamá-las de áreas de “fazejamento”, jamais de planejamento, o que seria uma calúnia e ofensa!

Normalmente estas áreas são preenchidas por funcionários que não foram bem na operação de cobrança, despreparados, sem qualquer treinamento formal ou informal, que se limitam a fazer uma distribuição da carga de cobrança com base em conceitos superados e arcaicos. Chato de se dizer, porém é um depósito de pessoas que não foram bem em outros departamentos. É aquele jogador que está no banco e que entra aos 46 minutos do segundo tempo apenas para o treinador ganhar algum tempo…Neste sentido, não se otimizam custos e recursos e consequentemente a recuperação de crédito.

Infelizmente, não há milagre, não há tecnologia disponível no mundo que seja capaz de compensar as deficiências de gestão e gerar os resultados esperados.

As empresas de cobrança e as instituições financeiras, de modo geral, pouco ou nada investem em gestão e treinamento, os alicerces de qualquer negócio, seja de que natureza for. Claro, exceções existem e cito aqui o meu amigo Rodolfo Seifert, que acredita e pratica a regra que capacitação é que o faz as empresas sobreviverem.

Enquanto não houver esta mudança de atitude, o feitiço do tempo correrá solto neste segmento.

Fonte: por Jaime Enkin, para CollBusinesNews em 22.02.2018

 

2018-02-23T08:49:24+00:0022/02/2018|Crédito&Cobrança|Nenhum Comentário
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