O Sonho de João Leite

HELENICE LAGUARDIA – O Tempo Economia

SÃO ROQUE DE MINAS. O ano era 1991, o cenário brasileiro: uma economia deprimida vinda de uma década perdida e sufocada por uma inflação de mais de 1.000% ao ano. Incrustrada na serra da Canastra, São Roque de Minas, na região Centro-Oeste do Estado, não vivia uma situação diferente da do país e que piorou ainda mais com a liquidação do único banco da cidade, a MinasCaixa, no início dos anos 90. Com 6.100 habitantes, sobrevivência baseada em pecuária leiteira, café e agricultura de subsistência, e um êxodo em busca de emprego e escola para os filhos, a cidade, com sua já combalida economia, viu bancos privados se negarem a fazer a instalação de uma agência. Foi no cooperativismo de crédito que a terra da nascente do São Francisco fez renascer sua economia.

Vinte e cinco anos depois da criação do banco Sicoob Saromcred – que reúne atualmente dez agências em municípios da região –, em palestras pelo Brasil afora e no exterior, os números apresentados pelo presidente do conselho de administração, João Carlos Leite, 51, nem se parecem com os da derrocada iminente da cidade de décadas passadas. “Se não fosse a cooperativa de crédito, estaríamos mortos, na inanição”, admitiu.

Mas antes de a própria instituição financeira – a cooperativa de crédito Sicoob Saromcred – dar certo, foram várias dificuldades para o projeto virar realidade. “Se os bancos diziam que São Roque de Minas não era praça bancária, como montar uma instituição local na desconfiança?”, contou. Depois, veio a dificuldade financeira: “Como arrumar recursos e constituir um fundo dentro da cooperativa a ser utilizado pela própria comunidade, gerindo resultado financeiro para ser reinvestido na comunidade para ela crescer? E veio o desafio tecnológico de como operacionalizar a instituição, não tínhamos conhecimento bancário”, sintetizou. Mas os entraves foram vencidos, e a cidade se reinventou. 

Realidade. Leite disse que a cooperativa investe na produção que gera empregos, que ativa o comércio e cria um círculo virtuoso de crescimento. “Vamos colher 150 mil sacas de café, o que faz um giro financeiro de R$ 75 milhões no comércio da região, com a saca a R$ 500”, calculou Leite.

Na cafeicultura são cerca de 200 produtores, o que dá um parque cafeeiro de mais de 25 milhões de pés de café no município, que tem 20 produtores de frutas e outras atividades e cerca de 400 produtores de leite que fazem uma média de 20 kg de queijo por dia.

Diferencial. Na região, Leite também administra dez agências Sicoob. “Temos demanda de outros municípios para atender com custo menor e levar à comunidade a visão estratégica de desenvolvimento econômico e social”.

Na região da Canastra, a Saromcred tem 19.593 cooperados. “A meta é atingir, em 2031, R$ 1 bilhão em ativos”, calculou Leite. Na evolução de depósitos, encerrou agosto com R$ 111 milhões. “O dinheiro não sai daqui”, garantiu Leite.

Com um volume financeiro total de R$ 219,56 milhões em agosto, Leite explicou que esse é o dinheiro acumulado em 25 anos da cooperativa de crédito, que pode investir em todos os setores da economia local. “Cooperativa não depende de dinheiro, depende de gente”, sintetizou o empreendedor, que faz queijo e cria gado na fazenda da família.

MODELO

Escola ensina experiência cooperativista

Além de financiar atividades agropecuárias tradicionais no dia a dia de São Roque de Minas, o Sicoob Saromcred também patrocina a educação. Com 150 alunos e 40 funcionários atualmente, foi criada em 1999 a Cooperativa Educacional de São Roque de Minas Instituto Ellos de Educação. “Os pais diziam que iam se mudar de São Roque para levar os filhos para estudar”, justifica João Leite, para a cooperativa de crédito financiar a instituição de ensino.

Neste ano, a Saromcred aplicou R$ 1,2 milhão na escola, o que representa 60% dos custos, sendo que os pais financiam os outros 40% para crianças de 3 anos até o ensino médio que têm educação empreendedora e financeira. As mensalidades vão de R$ 200 a R$ 600. “A educação empreendedora visa induzir as crianças a ver o problema como uma oportunidade de empreender e criar algo inovador”. (HL) 

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