Vivenciei o surto de “gripe suína”, em meados de 2009, como agente de saúde em uma equipe multiprofissional, atuando diariamente em nove escolas municipais de Foz do Iguaçu, região do extremo Oeste do Paraná. O meu campo de trabalho direto somava cerca de 5 mil crianças com idade entre 7 a 13 anos, atuando em parceria com os professores, famílias e também com os profissionais da saúde pública e da assistência social. Então foi um período de tripla exposição, dentro e fora da escola. No entanto, trabalhando com uma jornada de 40 horas semanais, ao longo de quase um ano letivo, não me contagiei.

Já se passaram mais de 10 anos. E após a mídia intensificar por semanas seguidas os cuidados individuais com a biossegurança, a Organização Mundial da Saúde decretou a pandemia, acionando todos os países no controle da pandemia. Somado a isso, é necessário haver um cuidado para evitar o pânico coletivo, deflagrado por reações extremas que vão desde a imprudência individual até o desespero coletivo.

Quase toda onda apresenta um início tímido, quase insuspeito, até chegar ao ápice. O momento seguinte, inevitavelmente, é a baixa da pressão sistêmica. Mas, todo socorrista luta contra um único inimigo: o tempo. A meta é reduzir os danos ao máximo, no menor tempo possível. É preciso se esforçar para manter o stress em um nível funcional: aquele que em nível ótimo poupa a energia do nosso organismo, mantendo o estado de alerta no ponto ideal, cuja consequência é poupar a própria saúde, sem acarretar desgaste ou sobrecarga na saúde das demais pessoas.

Quando há exaustão física e psicológica, o stress passa a ser disfuncional, por isso, é considerado tóxico, pois enfraquece o sistema imunológico e acelera o risco de propagação de doenças. Por isso, o stress emocional (pânico, desespero), nessa fase crítica de pandemia, pode ser tão grave, quanto o próprio vírus.

Stress funcional X Stress tóxico: qual a diferença?

Você sabia que o stress no Brasil é quadrifásico (positivo, resistência, pré-exaustão e exaustão), sendo que o terceiro estágio (pré-exaustão) é exclusivo do povo brasileiro?

Nos Estados Unidos, o parâmetro de avaliação do stress é trifásico (positivo, resistência e exaustão).

Quando estamos estressados, são liberados vários hormônios que preparam o corpo para a reação automática de luta ou fuga. O principal hormônio é o cortisol. A emissão frequente do cortisol fragiliza (enfraquece e detona) o sistema imunológico. Por isso, pessoas estressadas são mais propensas à quadros infectocontagiosos, dentre outros problemas de saúde mais graves e crônicos, por exemplo.

O stress no Brasil é quadrifásico, sendo composto por quatro fases: a primeira fase é o stress positivo (normal); a segunda fase é o stress de reserva (ocasional); a terceira fase é o stress de pré-exaustão; e a quarta fase é o de exaustão. O stress funcional abarca as duas primeiras fases: stress positivo e stress ocasional de reserva.

Saímos da primeira fase, que é a positiva (stress normal de alerta, aquele que nos dá força para fazer as ações cotidianas), para a segunda fase do stress denominada por stress de resistência.

A resistência é uma reserva técnica, um “colchão financeiro”, como dizem. Diante de uma crise, é comum suprimir as necessidades pessoais em prol de um objetivo maior. Com isso, a rotina de sono, por exemplo, pode ser alterada, o que muda a dinâmica familiar e afeta a rotina laboral. Como se fosse uma reserva financeira, esse stress resiste por um curto espaço de tempo. Passada a sobrecarga, é preciso repor a reserva, enquanto se reajusta à rotina habitual.

Contudo, se não houver um tempo mínimo de recuperação, uma pausa, o nosso organismo continua esgotando as reservas, até chegar à terceira fase: o stress de pré-exaustão. Nesse estágio, a imunidade começa a ser prejudicada.

Mas se não houver mudanças de hábitos, e a pessoa insistir em uma rotina insalubre, chega-se à fase mais grave do stress: que é da exaustão, quando uma doença se torna crônica, e acarreta por períodos de incapacidade de trabalhar, afetando a qualidade de vida da pessoa como um todo. Ela não vive: apenas sobrevive. Sua rotina vive por conta da(s) doença(s).

Logo, as fases disfuncionais correspondem à terceira e à quarta fase, respectivamente: a pré-exaustão e a exaustão. Por ser um stress tóxico, com grande probabilidade de se tornar crônico, a saúde é afetada. É necessário haver atenção médica.

Desenvolvimento: Como manter o stress funcional estando no auge da pandemia?

Para manter o stress funcional, pode-se adotar as seguintes estratégias de enfrentamento, que são três ações simples, respeitando a seguinte ordem:

Primeiro, sempre que sentir a mente invadida por pensamentos aflitivos, praticar por um a no máximo cinco minutos a respiração diafragmática (que é um treino respiratório simples, em que se inala o ar lentamente pelo nariz e se exala mais lentamente o ar pela boca). Essa respiração é mais lenta e profunda do que a respiração habitual ajuda baixar a descarga de cortisol (glândulas suprarrenais), aumenta a concentração e reduz a tensão muscular. Para isso, é prudente se afastar de situações desagradáveis, e se manter em um lugar seguro e calmo.

É mais eficaz o autocontrole do stress num ambiente mais tranquilo ou num ambiente barulhento e agitado?

A segunda estratégia de enfrentamento da crise é otimizar o conforto acústico, reduzindo o volume da própria voz; porque essa estratégia comportamental também ajuda a baixar o cortisol. Então, por extensão, é aconselhável silenciar o celular, televisão e tabletes. O conforto acústico acalma o cérebro e reduz o stress. E porque não aproveitar para reduzir a iluminação ambiental, optando por uma iluminação indireta mais suave?

Até aqui, expandimos os pulmões, repousamos a laringe, poupamos os ouvidos e os olhos. Tudo isso para a etapa mais importante: a gestão cognitiva

A terceira estratégia é focar a atenção nos pensamentos mais realistas. Após respirar profundamente por 1 minuto a 5 minutos, reduzindo o volume da voz, silenciando os aparelhos e a luminosidade do ambiente, é possível focar a mente com a atenção plena nos pensamentos mais otimistas, mesmo que os pensamentos derrotistas e catastróficos pairem e “falem mais alto” de início.

Os pensamentos funcionais são em geral mais otimistas, orientados para experiências de sucesso no passado e focados na esperança de um futuro mais leve. Ajuda muito buscar evidências confiáveis e lógicas que sustentem o otimismo, filtrando a escuta, dando ouvidos ao que realmente interessa em prol de todos. Fazer piadinhas e trocadilhos num momento como esse não é razoável. É prudente, ao invés disso, optar pela beleza do silêncio e ver o que em si pode ser melhorado e otimizado até o término dessa crise. Pois, é estratégico poupamos nossa mente e nosso corpo do desgaste de alarmes falsos para reservarmos energia adicional para a término dessa crise com assertividade, ou seja, nem passividade (imprudência), nem agressividade (catastrofismo). A assertividade é o meio-termo, o equilíbrio entre ação e reflexão.

Sem jamais ignorar os riscos, o objetivo da respiração diafragmática é otimizar, portanto, a capacidade cognitiva como atenção, raciocínio e memória. Seja qual for a situação, a respiração diafragmática vem se mostrando, empiricamente, eficaz em momentos de stress agudo.

É oportuno destacar também que “calma” não significa “inércia”. Manter o corpo sobre controle, é mais eficaz do que fomentar o pânico. O objetivo do autocontrole é somar a estratégia herdada de nossos ancestrais (luta/fuga), que mantém nosso nível de alerta hiperativado, à estratégia aprendida pelo raciocínio lógico, diante de uma iminente tragédia, até atingirmos o ponto “ótimo” do stress (estar em alerta, mas sem exaustão).

Por isso, atualmente, com todos os recursos materiais, intelectuais e humanos que dispomos, ser otimista aumenta sim a chance de sobrevivência. Algo muito diferente dos nossos ancestrais que viviam isolados sem nenhuma comunicação, nem rede de apoio.

O cérebro – diante do comando correto da mente – libera o raciocínio lógico, ao invés de bombardear a nossa corrente sanguínea com mais cortisol. Por isso, após uma descarga de cortisol e de adrenalina, nossos braços e pernas se hiperativam, a nossa respiração fica curtinha (para facilitar a explosão muscular de ataque e fuga).

Passados cerca de 20 minutos, as pernas estarão bambas, os braços moles, uma sensação de falta de ar, taquicardia, suor frio, visão turva, sensação de dormência ou desmaios ocorrem.

Essas reações fisiológicas que geram um exaurimento físico, dificultam as chances de socorro. Com isso, ao invés de 5 minutos de atenção plena com a prática das três orientações de gestão do stress, serão gastos pelo menos 30 minutos para “voltar ao estado normal”; mas as palavras ditas no desespero, aos gritos, ainda reverberão nos ouvidos de quem estiver por perto. A ansiedade é contagiante, aumentando o risco de transmissão de doenças infectocontagiosas. Por isso a preocupação das autoridades da Saúde em alertar a população sem apavorá-la.

CONCLUSÃO.

Qual é o maior ganho dessa autodisciplina mental?  GanHo de tempo!

Controlar o stress em um nível ótimo, funcional, significa potencializar as chances de sobrevivência, a começar por poupar o sistema imunológico, que fica mais resistente a doenças. Logo, junto com os cuidados com a biossegurança, é importante sim haver um cuidado com a “psicossegurança” (expressão minha), através por exemplo, de uma postura proativa, tanto mental, quanto comportamental, em prol da saúde pública.

Em termos pessoais, a pior consequência do stress tóxico é deprimir o nosso sistema imunológico. Por isso, oriento a prática de três ações simples, proativas, diante do stress ficar agudo, que em outras palavras, significa:

  1. Desacelerar a respiração ofegante pela respiração mais lenta e profunda (inalando o ar pelo nariz e exalando lentamente pela boca, por pelo menos um minuto).
  2. Desacelerar a fala, baixando o tom da voz: falando apenas o necessário (não seja “boca nervosa”, isso é muito irritante).
  3. Desacelerar a mente, focando a atenção plena em pensamentos mais realistas e otimistasb; uscar o nível ótimo: algo entre o bom e o excelente. Deixe a perfeição para os Deuses, gurus, mágicos, etc. Você é humano.

Quando a pessoa está ciente do processo fisiológico de autodefesa do nosso corpo, e sabe como mantê-lo em um nível otimizado, muito mais funcional, aumentam as chances de sobrevivência também de quem estiver próximo dela. É a melhoria do tempo de vida, em quantidade e qualidade.

Nosso corpo é programado para a sobrevivência, para a vida.

Com a pandemia do Coronavírus, é importante explicar – com o olhar da psicologia – como funciona o gatilho fisiológico do stress, deflagrado ou inflados pelos pensamentos catastróficos disfuncionais, desencadeando comportamentos ineficazes no curto, médio e longo prazo.

Daí a razão desse ensaio psicoeducacional. Espero ter conseguido alertar sobre a importância da calma diante da crise, por meio de práticas simples de autocontrole do stress:

  1.  respirar;
  2. silenciar e
  3. raciocinar.

A prática torna a postura proativa mais fácil. Quanto mais treinarmos, mais eficazes nos tornamos. Como resumiu um grande amigo de 83 anos ontem:
“- É preciso aprender a transformar uma coisa em ruim em uma coisa boa”.

Que essa crise nos sirva de laboratório para treinarmos nosso potencial de resiliência e mediação de conflitos, já que inexiste marinheiro de mar manso.

“Essa epidemia vai passar. E se cada um fizer a sua parte, vai passar mais rápido. “ Dr. Drauzio Varella, Programa Fantástico, 15/03/2020

Fonte: por   Esp. Graça Razera para CollBusiness News, em 17.03.2020


Referência:

  1. https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2020-03/oms-e-enap-oferecem-curso-gratuito-sobre-coronavirus
  2. https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019/events-as-they-happen
  3. http://www.estresse.com.br/publicacoes/o-modelo-quadrifasico-do-stress/
  4. https://especiais.gazetadopovo.com.br/coronavirus/pandemia/
  5. Lipp, Marilda (org.). Mecanismos Neuropsicofisiológicos Do Stress – Teoria E Aplicações Clínicas (2008).

Sugestão de leitura (biblioterapia):

  • “Pesquisas sobre Stress no Brasil: saúde, ocupações e grupos de risco”; por Dra. Marilda Lipp (Papirus Editora).
  • “Sentimentos que causam stress: como lidar com eles” por Dra. Marilda Lipp (Papirus Editora).
  • “Relaxamento para todos: controle o seu stress”, por Marilda Lipp (papiros Editora).

Sugestão complementar para Profissionais da Saúde e da Educação:

  • “Stress, Hipertensão Arterial e Qualidade de Vida”; Marilda Lipp e Joáo Carlos Rocha (Papirus Editora).
  • Pressão Alta e Stress. O que fazer agora? “. Marilda Lipp e João Carlos Rocha (2008).
  • “Stress ao longo da vida” por Marilda E. Lipp, Lúcia E.N. Malagris e Lúcio E. Novaes.
  • “Doenças autoimunes: previna e reverta todo o universo de doenças inflamatórias”, da Dra. Amy Myers, médica (Ed.Martins Fontes).
  • “Rápido e devagar: duas formas de pensar”, por Daniel Kahneman, prêmio Nobel de Economia (ed.Objetiva).
  • “Manual do Inventário de Stress Quadrifásico”, por Marilda Lipp (somente para Psicólogos).