Com o impulso para a transformação digital, as relações entre negócios e a TI pareciam melhorar, mas um obstáculo no caminho levou a um desvio de rota
alinhamento

Os executivos de TI de sua empresa e os principais executivos de negócios têm o mesmo entendimento sobre o papel da TI dentro da organização? Em 2012, pesquisadores da Capgemini fizeram essa pergunta a mais de 1.300 executivos sêniores. Cerca de 65% responderam que sim.

Talvez um número próximo a 100% teria sido o ideal, mas o fato de que quase dois terços das empresas pesquisadas acreditavam que se negócio e TI estivessem na mesma página eram uma boa notícia. Isto representava um progresso enorme e conquistado com esforço desde os velhos tempos, quando os executivos de negócios viam os profissionais de tecnologia como geeks, e os profissionais de tecnologia enxergavam os executivos de negócios como pessoas sem alma e obcecados pelo dinheiro.

Nos últimos seis anos, porém, o alinhamento entre negócios e TI piorou muito. Quando a mesma pergunta foi feita este ano, apenas 37% dos executivos disseram que os líderes de negócios e de TI chegaram a um acordo quanto ao papel da TI, de acordo com um estudo recém-divulgado pela Capgemini. E isso não é tudo. Apenas 35% dos entrevistados acreditam que os executivos de TI e de negócios concordam em como a tecnologia pode aumentar a produtividade, em comparação a 59% em 2012. Apenas 36% afirmaram que os líderes de TI e de negócios têm a mesma visão das prioridades de investimento em TI, comparado a 53% de seis anos atrás.

Esse declínio no alinhamento entre o negócio e TI aconteceu em uma era em que os líderes de TI finalmente começaram a conquistar o “lugar na mesa” que sempre desejaram. Quer os líderes empresariais acreditem ou não que “toda empresa é uma empresa de software”, todos reconhecem o poder revolucionário da tecnologia nos diversos setores – e estão expressando esse reconhecimento com dinheiro. A IDC prevê que o gasto total mundial em tecnologias de transformação digital excederá US$1,3 trilhão em 2018.

Em outras palavras, nos últimos anos os líderes de negócios passaram a valorizar a TI como nunca antes. Ao mesmo tempo, a confiança deles nas pessoas que gerenciam a TI despencou. É hora de perguntar: o que deu errado?

Não há uma única ou simples resposta para essa pergunta. Mas aqui estão algumas explicações que valem a pena considerar – e é importante abordá-las se você quiser melhorar o alinhamento em sua própria organização.

O ritmo de mudança é difícil para todos

A velocidade ofuscante da inovação tecnológica atualmente está sobrecarregando os líderes e funcionários de TI que trabalham com tecnologia. Por isso, é fácil esquecer que a rápida mudança tecnológica também cria grandes preocupações para os líderes empresariais da diretoria executiva – preocupação que podem transformar-se em pânico se eles acreditarem que sua organização corre o risco de ficar trás dos concorrentes já estabelecidos ou das novas empresas disruptoras.

“O ritmo da mudança tecnológica está mais dramático do que nunca”, comentou Harry Moseley, CIO da empresa de videoconferência Zoom e ex-CIO da KPMG. “Febril é a palavra que eu uso. Eu acho que o cenário está se compondo, e algumas empresas são desafiadas sobre como acompanhar – elas estão quase ofegantes”.

Isso pode causar desconfiança entre os negócios e TI, ele explica. “Se você fosse um líder de negócios e se sentisse como se estivesse ficando para trás enquanto todos os outros estão progredindo, você diria: ‘Preciso de mais controle. Eu preciso das minhas mãos no volante. Eu não posso deixar isso para outra pessoa”.

Enquanto isso, os líderes de TI estão correndo o mais rápido que podem para acompanhar as inovações em alta velocidade. “O ritmo de mudança na sociedade de hoje também está tirando a atenção deles de manter essas relações com os negócios e criar visibilidade sobre o que está acontecendo em TI”, analisou Adam Tallinger, vice-presidente da consultoria de TI da Impact Advisors. Essas dinâmicas não ajudam, e as coisas podem ficar ainda piores quando os líderes do negócio solicitam ou demandam transformação digital. “‘Fizemos muito nos últimos anos. Estamos exaustos e agora você está pedindo mais’. Essa pode ser a perspectiva da TI”.

Não há nada que um líder de TI possa fazer para diminuir o ritmo da mudança tecnológica. Mas é possível evitar que a rápida mudança desgaste as relações entre o negócio e TI se você garantir que os líderes de negócios entendam totalmente o que a TI está fazendo – mesmo quando a sobrecarga de trabalho faça com que seja tentador pular essa etapa.

“Sempre houve falta de transparência na TI”, avaliou Peter Yared, CTO da startup de software de workflows trabalho Sapho e ex-CIO / CTO da CBS Interactive. “Como os custos começam a aumentar, isso gera muita insatisfação e as pessoas não gastam o que deveriam. Muito disso pode ser corrigido com maior transparência”.

Ter um assento na mesa cria novos desafios

“Nos anos 2000, a TI estava procurando um ‘lugar à mesa'”, diz Tallinger. No passado, os líderes de TI eram frequentemente deixados de fora da discussão até que um grande projeto ou compra já estivesse em andamento. “Costumava ser, ‘TI, nós compramos este sistema, agora você precisa instalá-lo para nós’”. Como resultado, alguns desses novos sistemas nunca foram usados.

Isso mudou agora que os líderes de TI são rotineiramente incluídos na tomada de decisões estratégicas. “Existe esse costume de dizer: ‘Você precisa avaliar isso’”, resgatou Tallinger. “Mas isso leva muito tempo. Na área de saúde, eu vi um simples pedido de mudança em um sistema de prontuário eletrônico levar 100 horas de análise antes que pudéssemos ver se era apenas viável, passando longe de implementá-lo, testá-lo e fazê-lo funcionar. “Nesta nova realidade, ele diz: “Tornou-se fácil para a cultura e os esforços de relacionamento comercial se perderem”.

Ao mesmo tempo, a estatura crescente da TI pode perturbar alguns executivos do c-level, porque altera o equilíbrio de poder, destacou Moseley, da Zoom. “Não importa em qual setor você esteja, você depende da tecnologia. E para todas as empresas, a dependência da tecnologia tornou-se muito mais crítica do que nunca. Se eles não estão criando novos recursos e tecnologias preditivas, vão perder. Então, os líderes de negócios, embora não entendam o que precisam fazer de uma perspectiva técnica, acham que precisam ter um papel importante nisso. Eles querem ter muito mais controle do que nunca sobre a visão do que está sendo feito”.

Ao mesmo tempo, os CIOs estão mais bem equipados para assumir um papel de liderança quando se trata de novas tecnologias. “O CIO está na incrível posição de ter uma visão 360 graus do negócio, não apenas do front office, mas também do back office, capital humano e finanças, e nós realmente entendemos a arte do possível”, enfatizou. “Portanto, há um conflito entre líderes de TI mais sêniores e com muita experiência e conhecimento e líderes empresariais que desejam liderar esse exercício”.

É por isso que Moseley acredita que é extremamente importante que os CIOs se reportem aos CEOs – o que cada vez mais tem acontecido. “Eu li três artigos hoje sobre a nomeação de CIOs e todos eles estão reportando aos CEOs. Se eu sou o CIO e me reporto ao CEO, então os parceiros de negócios são meus pares”, explica. “Vamos ter um bom diálogo porque estamos sentados na mesma mesa. E meu caro, você pode avançar rápido e cimplementar mudanças”. Por outro lado, se o CIO se reportar ao CFO, então o CFO é o par dos parceiros de negócios. “O CIO torna-se um apoio”.

A transformação digital marca uma nova fase de um ciclo

“Muitas vezes, quando começamos a medir algo porque percebemos que aquilo está errado, chegamos a um ponto em que houve melhora”, reconhece Parzych. “E então – ótimo! – não precisamos mais nos concentrar nisso. Mas isso é algo em que você tem que continuar trabalhando constantemente. Assim que você tira o foco do seu objetivo, as coisas começam a retroceder. Paramos de nos comunicar e de analisar as métricas certas e todos os outros elementos que estão alinhados, e tivemos um retrocesso.”

Então, talvez, à medida que os líderes de negócios e de TI mais uma vez reconheçam a necessidade de trabalhar em melhores comunicações, os relacionamentos retornarão aos níveis anteriores. “Todos os sistemas orgânicos têm ciclos”, destaca Collins. “É uma marcha constante à medida que evoluímos.”

O relacionamento da TI com os negócios já passou por vários ciclos, acrescenta o executivo. “Estávamos todos no mainframe e você não tinha escolha. Então vem o computador pessoal e o que nós dissemos? As unidades de negócios são responsáveis por seus próprios orçamentos de tecnologia. Mas então houve uma perda de controle, dessa forma passamos pela centralização novamente. Depois, o software como serviço surgiu e todos têm seu próprio orçamento. Assim, ficamos sem uma visão completa do que está acontecendo porque todos os nossos dados estão em silos. Portanto, estamos assistindo às pessoas entenderem que a nova função da TI é proteger a empresa e fazer toda a integração que une os dados”.

Esse novo foco dos líderes de negócios em TI está na raiz da tendência atual da transformação digital, acrescenta. “Porque todos agora percebem que seus negócios funcionam com tecnologia e você não pode desativá-la. Não importa se você tem ou não uma estratégia de transformação digital – você está bem no meio dela.”

Em outras palavras, os riscos são maiores do que nunca, e esses altos riscos podem explicar por que os negócios e a TI estão menos sincronizados do que costumavam ser. “Todo mundo sabe intuitivamente que não dá mais para operar sem tecnologia”, acrescenta. “Não há como executar um negócio e ser competitivo sem ela. E cada empresa está definindo por si só como transformar a tecnologia em algum tipo de valor competitivo. É aí que está todo o esforço”.

Fonte: por Minda Zetlin para CIO from IDG, em 16.09.2019