Resiliência Mental no Jogo da Vida

O exemplo de 13 jovens sobreviventes do time de futebol tailandês “Javalis Selvagens”.

Nesta Copa do Mundo de Futebol de 2018, a equipe campeã foi o time da França. Mas afirmaria que também o time da Tailândia, através dos garotos do Javalis Selvagens, time amador composto por jogadores de 11 a 16 anos de idade e um treinador de 25 anos. Após o desaparecimento por duas semanas, começava a luta por buscas. Ao final de quase 20 dias, todos sobreviveram extraídos do fundo mais profundo, de uma extensa caverna alagada por várias tempestades. A alegria do jogo do Brasil que passava em cada etapa, contrastava com as notícias sobre os desafios contra o relógio dos garotos, que para o espanto do mundo, estavam “serenamente” calmos!

Foram 13 resgates realizados em três dias, do dia 8 a 10 de julho, que envolveu quase 100 mergulhadores profissionais, fora toda a equipe formada por profissionais da saúde, repórteres de todo o mundo e voluntários.

É certo que no futebol, quanto na vida, luta-se com forças contrárias diariamente, mas mesmo querendo acertar, às vezes, há o azar de alguns jogadores fazerem um gol contra. Aprender a vencer não é o único objetivo do esporte, nem da vida. Aprender a perder é um exercício constante. Mas sendo a vitória o maior desafio, a garra é o principal fator a ser mantido. Contudo, nem sempre a garra se mantém com gritos de guerra, camuflados no momento de cantar o Hino Nacional até o fim com todo o fôlego dos pulmões.

A quietude mental, o silêncio, a contemplação ou uma prática meditativa auxilia a educar a mente a não atenção aos pensamentos fóbicos e ansiogênicos, diante do perigo iminente, mesmo sendo a situação perigosa. Eis, talvez, o segredo da resiliência mental, ou seja, a capacidade de tolerar frustração e de se recuperar – não importa a rapidez do tempo – após um longo estresse. Para tanto, é válido todo esforço para manter a calma. Poucos sabem que a calma e o silêncio, ao invés dos gritos, é fundamental para a resolução de problemas.

É preciso haver uma estratégia anterior de aprendizagem ou seja: de autopreparação de fortalecimento físico e mental, com cada jogador, dentro dos limites e potencialidades de cada um, antes de entrarem na arena e enfrentarem juntos os oponentes corpo a corpo.

O esporte é um espetáculo de explosão física e emocional.

Por outro lado, aprender a ganhar um jogo ou sobreviver à uma tragédia como esta na Tailândia exigiu serenidade, capacidade de adiar uma recompensa do alívio rápido que uma explosão emocional proporciona como ocorre nas crianças pequenas de três anos de idade, a famosa idade da birra. A maturidade, no entanto, é aprender a desenvolver a capacidade mental de conter a energia. Diversos estudos em psicologia comprovam que adiar uma recompensa imediata por outra muito maior no futuro, aprimora a sua autonomia.

O time oponente contra os 13 jovens foi a “Mãe-Natureza”. O desafio de cada um dos garotos do time Javalis Selvagens  foi manter-se “Vivo” por quase 3 semanas isolados no fundo de uma extensa galeria cavernosa, que, após um dilúvio, os impediu de saírem pelas vias normais. A maioria não sabia nadar, nem mergulhar. Com a inundação, ficaram presos e isolados no fundo de um percurso sombrio, úmido e escuro de mais de 4 km.

Nestes quase 20 dias, todos passaram por privações físicas extremas: fome, sede, frio e muito desconforto físico. Após dias intensos de buscas, mergulhadores ingleses ao acaso os descobriram no fundo de uma sequência de diversas cavernas estreitas, um labirinto que envolvia trechos de caminhada sendo a maior parte inundada pelas águas das chuvas.  Os mergulhadores se guiaram pelo forte odor, que se intensificou no local onde os 13 jovens se refugiaram do alagamento; e no primeiro contato se surpreenderam com a calma dos garotos diante de uma situação tão extrema e perigosa. Um deles de 14 anos de idade conseguiu se comunicar com os mergulhadores britânicos em inglês.

O sofrimento em geral é a linha divisória entre um garoto e um homem, uma garota e uma mulher. Cada jogador lutou consigo estoicamente, respeitando a hierarquia e a parceria entre os colegas. A serenidade de todos propiciou a sobrevivência no que foi vital: oxigênio! Relatos informam que se alternavam em curtos períodos de atividade física cavando um túnel, bebendo água que escorria das rochas, e momentos de meditação, ações orientadas pelo treinador de futebol, que fez jejum, cedendo sua escassa alimentação aos meninos. Foi ele quem percebeu um ruído estranho no primeiro contato com os mergulhadores ingleses, ao solicitar que os garotos fizessem silêncio. Em outras palavras, após duas semanas, ele já havia mapeado os ruídos da caverna, os ciclos da natureza, as diferenças entre o som da água que escorria das rochas, das que subiam vindo das chuvas pela entrada da caverna, do som de pequenos animais possivelmente. (Será que há grilos no fundo de uma caverna tão profunda?). Até que um dos garotos, sentindo medo, ligou a lanterna e perceberam a presença dois hominídeos emergidos da água, enfim, por sorte, seres da própria espécie que estavam ali especificamente para a missão de resgate como voluntários. A partir daí, houve uma intensa mobilização para o resgate de todos.

O treinador, dotado de uma liderança discreta e serena, chamado Ekapol Chanthawong, tem 25 anos, foi monge budista, e vem sendo considerado a peça essencial para que toda a missão de resgate chegasse ao final bem-sucedida. Ele conseguiu manter os garotos unidos, numa rotina que alternou entre ação e repouso, mantendo-os ativos e calmos, mesmo diante da enorme incerteza que aumentava com o passar das horas e dos dias, numa situação da extrema escassez: escassez de higiene, escassez de água potável, escassez de alimento, escassez de conforto para dormir, escassez de luz natural e principalmente diante da principal escassez: a escassez de oxigênio.

É preciso destacar que um mergulhador tailandês faleceu antes do primeiro resgate ao tentar levar mais oxigênio para os garotos. Este triste fato fez com que a equipe de resgate redobrasse a segurança na missão, espalhando cordas como guia para que não houvesse perdas de trajeto, perdas de tempo, e descaminhos, no labirinto estreito, malcheiroso e escuro das múltiplas cavernas.

A ansiedade de todos se intensificou sempre que as chuvas continuaram a cair e as máquinas não venciam escoar boa parte das águas que alagavam o local; por sorte, quebrou logo após o último resgate; e Mãe-Natureza avançou no que já era dela, por fim, mas sem nenhum ser humano intrometido lá dentro.

Todos os 13 sobreviventes foram sedados no trajeto de retorno, submersos em sua maior parte, para evitar o risco de ataques de pânico, pois isso consumiria rapidamente o oxigênio dos cilindros, e colocaria em risco os mergulhadores e toda a missão de resgate.

Crédito imagem Daiane Siquelli -10/07/2018

Acabando a Copa, outra chuva caiu junto com os confetes, destacando a Presidente da Croácia, outra líder que mereceu destaque na mídia internacional pelo seu elegante patriotismo, na entrega da taça ao time da França, time vencedor.

Mas embora tenha sido um encerramento emocionante, para mim, destacou a força do jovem treinador do time tailandês.

O treinador foi um grande exemplo de resiliência mental destes meninos, e também ao Mundo, sobre o papel da liderança saudável, principalmente diante de uma intensa crise. Ele em algumas reportagens declarou se desculpar aos pais dos garotos pela aventura arriscada, quando foram surpreendidos pela subida da água da chuva forte que alagou os trechos de saída do local.

Percebido o erro, fez todo possível para reverter a situação. Fez jejum em prol dos garotos, ensinou-os a meditar, coordenou a atividade física e tudo isso contribuiu para que se mantivessem mais esperançosos e unidos. Se não fosse a sua liderança serena e tenaz, com certeza, tudo teria sido muito mais difícil e até mais trágico.

Todos conseguiram – em meio ao mais absoluto silêncio e escuridão – traçar “planos de futuro”, se recordarem de momentos bons junto de seus familiares, incluindo até as obrigações escolares que foram “adiadas por motivos de força maior”, e pensarem também no que poderiam fazer ao saírem dali vivos. Em resumo: a saúde cognitiva foi crucial para o sucesso de toda a missão, do início ao final destas três semanas de “jogo”.

O reflexo da liderança serena do líder ficou evidente nos bilhetes que os garotos escreveram para seus familiares, tentando acalmá-los, afirmando que estavam “bem” e que não precisassem se preocupar

Como no futebol, na vida às vezes se faz um “gol contra” aqui e ali. É parte da natureza humana errar e não somente acertar sempre. Acertar sempre é desumano. Errar sempre também. A sabedoria oriental indica evitar os extremos e optar pelo meio-termo, pela moderação. Fazer uma aventura em um período intenso de chuvas, para comemorar o aniversário de um dos jogadores, não foi prudente. Envolveu uma boa dose de ousadia, caraterística típica da juventude, típica de meninos e garotos que vislumbram a vida adulta, e nesta fase da puberdade é fase de exploração, das descobertas, de erros mais do que acertos. E isso é normal! Faz parte do crescimento humano.

Contudo, cometida a imprudência, o jovem instrutor lutou bravamente para manter os garotos nutridos e seguros, focando a atenção na serenidade, atento a tudo que ocorria ao seu redor. Com isso, todos pouparam energia física e mental. Felizmente todos ali sobreviveram. Lamentam profundamente a morte de um mergulhador tailandês que serviu de alerta para o real perigo da missão de resgate, que na tentativa de salvá-los, perdeu a  própria vida.

Ao final do resgate, todos receberam cuidados médicos intensivos para recuperarem o peso e a imunidade, até terem condições para retornarem para as suas famílias e suas rotinas.

Ao final, estão mais amadurecidos com a experiência, dando maior valor à própria vida e à família, valorizando a necessidade de haver maior prudência, a lição a todos os envolvidos. O potencial de positividade de cada um, no respeito à hierarquia, ao líder, ao colega e a si mesmo, permitiu o sucesso de todos. Mais do que a copa, estes 13 jovens conquistaram a vida em um novo patamar de realização. Todos foram resilientes, ou seja, se tornaram mais fortes após a situação de perigo que envolveu a extrema privação.

De acordo com os médicos, os meninos não desenvolveram problemas psicológicos decorrentes desta condição extrema de sobrevivência, como por exemplo, o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), nem depressão, transtorno de ansiedade, tão comum em situações como estas de extremo risco à manutenção da vida.

De acordo com a Psicologia Positiva, todos se destacaram pela virtude Coragem, que engloba as seguintes forças de caráter: bravura, persistência, honestidade e perspectiva de futuro.

E o potencial de positividade, nutrido por lembranças positivas, é o maior combustível para que uma virtude se destaque, aumentando assim as chances de sobrevivência. São seis as virtudes humanas: sabedoria, coragem, humanidade, transcendência, justiça e temperança, que somam juntas, 24 forças de caráter.

Quanto ao gol contra, do treinador, apesar do risco enorme, ele admitiu o erro de ter sido imprudente. E tentou bravamente atenuar os danos, em prol da segurança dos seus subordinados. Sendo todos muito jovens, após esta experiência, terão todo o tempo do mundo para desenvolverem a virtude da moderação (temperança), que inclui as forças de caráter: perdão, modéstia, prudência e autocontrole.

Graças à emoção positiva “esperança”, todos conseguiram sobreviver, mesmo contra o relógio biológico e contra o relógio da natureza pelas extensas e fortes chuvas, somado é claro ao enorme esforço de todos que planejaram e executaram o resgate.

Viver é aprender! Viver é acertar! Viver é errar também, cujo desespero, destempero, catarse emocional, explosão comportamental teria sido o pior erro neste contexto específico. Como me disse certa vez uma grande amiga também escritora:”- A raiva é a pior conselheira!”

A calma aumenta a probabilidade de acerto em boa parte das vezes tanto na vida como no jogo de futebol. Graças ao líder moral, mantiveram pensamentos focados em memórias positivas e na tentativa de solução do problema, como a busca por água, na força por uma saída, alternando momentos de pausas com ação estratégica, equilibrando ação e retenção.

Se entrassem em pânico, teriam se exaurido emocionalmente fomentados por pensamentos catastróficos, e como consequência teriam mergulhado na desesperança (apatia) ou na raiva (violência), baixando ainda mais a imunidade, agravando o risco de doenças, e isso tornaria a situação mais trágica. O comedimento propiciou uma redução de danos.

Imagino um grupo de italianos ou de mexicanos, ou de brasileiros por quanto tempo resistiriam? Admiro a cultura japonesa pelo senso de coletividade e comedimento.

Enfim, das castanholas sapateantes à meditação zen-budista, acredito que todas as estratégias de enfrentamento sejam válidas, dependendo do contexto de cada uma.

A variedade é que faz a vida coletiva tão fascinante!

Contudo, neste contexto extremo, o jogo de braço entre a Mãe-Natureza e os 13 sobreviventes e os quase 100 mergulhares fez com que – em minha opinião pessoal – a Tailândia merecesse a copa de 2018, seguida da Inglaterra (representada pelos dois mergulhadores que tiveram a calma e a vocação de detetives das águas, certamente inspirados no desbravamento dos mares e nos famosos romances policiais de Agatha Christie. Tudo serve de inspiração para se vencer um desafio como este).

Driblando a morte, todos saíram mais amadurecidos e preparados para o jogo da vida.

Se a luta de um, é a de todos nós, enquanto familiares da mesma espécie, a humana, a vitória de um homem é a vitória de todos nós também, servindo como fonte de inspiração para vencermos nossas próprias lutas internas diante de milhares de decisões de destino.

Fonte: por Graça Razera para CollBusiness News, em 02.08.2018

Referências:

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-44829014

https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,quinto-menino-e-resgatado-na-tailandia,70002395698

http://www.sonoticiaboa.com.br/2018/07/10/treinador-ensinou-meditacao-acalmar-meninos-caverna/

SELIGMAN, Martin E.P. Florescer: uma nova compreensão sobre a natureza da felicidade e do bem-estar. Rio de Janeiro. Ed. Objetiva, 2011.

2018-08-07T15:21:38-03:0002/08/2018|Capital Humano|Nenhum Comentário
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