Será que o as empresas realmente podem contribuir para um mundo melhor? – PARTE I

Qual o propósito das empresas? Pra quê elas existem?

Essa é uma pergunta que paramos de nos fazer nas últimas décadas. Dessa forma, acabamos simplesmente aceitando que as empresas existem para servir a economia e não às pessoas. Dinheiro é uma linguagem que media as relações humanas e organiza o sistema que inventamos chamado capitalismo.

Porém, em um determinado momento, o dinheiro virou o fim em si e aqueles mais sucedidos neste sistema passaram a endeusar a acumulação de capital. Desviamos do curso original e entramos num caminho escuro, denso, difícil para a grande maioria dos 7 bilhões de habitantes do  planeta. O que aconteceu?

Na história da humanidade, riqueza e prosperidade nunca foram um problema, pelo contrário, são combustíveis de evolução. Nos últimos 50 anos, a expectativa de vida mundial aumentou de 64 para 70 anos. A mortalidade infantil na África Subsaariana ainda é muito alta, mas em 2008 já havia caído para um terço da mesma taxa em Liverpool no ano 1870, no começo da revolução industrial. O número de mortes por falta de acesso à água tratada caiu de 1,5 para cada 1000 pessoas em países em desenvolvimento em 1950 para 0,4 hoje. A taxa de analfabetismo caiu de 70% da população mundial em 1900 para cerca de 23% agora. Em 1900, apenas 15% do total das pessoas que trabalhavam eram mulheres. Hoje, este número é de 40% e segue aumentando. Qualquer pessoa que quiser defender as melhoras da humanidade graças ao desenvolvimento econômico tem material de sobra para isso. Mas fica a pergunta: isso é suficiente?

Por que não avançamos mais rapidamente nas melhores de condições de vida? Não podemos admitir o conforto mental ao olhar para estes números e achar que estamos indo bem.

Sim, estamos melhorando, mas ainda temos problemas que não podemos deixar de lado, como deixa clara a pesquisa Scorecard for Humanity. Por exemplo, mesmo com os avanços da medicina de hoje, 6 milhões de crianças ainda morrem antes de completar 5 anos de vida (a maioria destas crianças em países africanos ou asiáticos). Em função da atividade humana, supõe-se que a taxa de velocidade de extinção de espécies agora é de 100 a 1000 vezes maior do que os períodos geológicos da Terra. E apesar de serem quase 40% do total dos trabalhadores no mundo, as mulheres recebem apenas 60% do salário dos homens.

Olhar para todo esse progresso apenas para celebrá-lo me faz lembrar a história de um menino pequeno que capturou uma aranha e na sua exploração curiosa arrancou uma perna do animal. Ao ser questionado, respondeu.

—Mas qual o problema, ela ainda tem mais 7 pernas?

É um pouco como estamos vivendo: tentando relativizar a nossa incapacidade de cuidar do todo para esconder nossa culpa em um mundo de sensações, prazeres e distrações eletrônicas de todos os tipos.

De novo: por que chegamos a este ponto? Vivemos em uma cultura individualista e narcisista que desviou a sensação de paz interior para paz exterior. A sociedade de consumo quase nos obriga a “comprar coisas que não precisamos com o dinheiro que não temos para impressionar a quem não gostamos”, como diz a frase que circula pela internet.

O estímulo ao consumo remodelou o modo de produção aceleradamente nas últimas décadas. Em busca de margens maiores, muitas empresas terceirizaram a produção para outros países, com mão de obra muito mais barata em função de más condições de trabalho. Hoje se pode comprar camisetas em grandes lojas de moda por valores abaixo de 5 dólares. É extremamente barato. Mas você já se perguntou quem está pagando o verdadeiro preço?

Enquanto milhares de pessoas sofrem em regime de quase escravidão no Qatar, em 2022, o que pode ser considerado o maior “pão e circo” do planeta vai ter seu grande espetáculo no mundo árabe. A Copa do Mundo de Futebol gira uma indústria que cria oportunidades de desenvolvimento por meio de esporte, mas concentra lucros cada vez maiores para poucos dirigentes que brilham vestindo gravatas de seda e ternos lustrosos na televisão. Na tela que chega a milhões de lares e estabelecimentos ao redor do mundo.

A definição de sucesso no mundo de hoje está intimamente ligada à fama. As referências individuais estão cada vez mais deslocadas para personalidades como atores e esportistas que não raro são menores do que sua própria fama e alimentam o individualismo e narcisismo em um mundo que precisa cada vez mais de coletividade e menos ego.

E no ambiente dos negócios, que é o nosso ponto aqui, os empresários considerados bem-sucedidos são em geral apenas aqueles que acumularam fortunas. Ter recompensa em forma de capital não é o problema em si, mas a pressão social para chegar lá talvez seja.

Os deuses do Olimpo do capital são aqueles que ganharam no jogo dos negócios, independente de como tenham feito isso. Estou falando de executivos, que jogam com muita ganância e falta de ética, alguns até passando uma temporada na prisão, e mesmo assim estão sempre nas capas da revistas e jornais, garbosos e elegantes.

Mas tudo bem: são CEOs que geram resultados cada vez maiores para as empresas — mesmo que para isso não hesitem em explorar funcionários e fornecedores, pagar propinas ou espionar a concorrência. Em uma licença poética, são os “James Bonds” do mercado de capitais – têm licença para matar desde que entreguem resultados para os acionistas – seguidos pelo séquito de trabalhadores que também trabalham duramente para os acionistas, mesmo sem saber quem são.

Essa despersonalização das relações é a origem da desconexão entre o propósito de uma empresa existir e no que ela se tornou.

* * * FIM DA PARTE I * * *

Fonte: por Rodrigo Vieira Cunha* em 28.07.2018.

Integra do artigo: http://bit.ly/empresasparaummundomelhor

* Estuda movimentos contemporâneos de evolução da humanidade para interpretar e compartilhar conteúdos em diferentes formas: palestras, textos, apresentações, artigos e conversas. É embaixador-sênior do TED no Brasil e sócio das agências de comunicação LiveAD e ProfilePR. Também organiza retiros sobre desenvolvimento de consciência com líderes de diversos países; está escrevendo o livro “Humanos de Negócios” e  está organizando o “Flow” – um festival para trazer ferramentas e aumentar o nível de consciência das nossas relações.

2018-08-07T15:26:10-03:0030/07/2018|Sustentabilidade|Nenhum Comentário
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