Uso de Dados de Redes Sociais na Indústria de Crédito & Risco: uma realidade

Professor Marcos Fattibene

Matéria originalmente publicada na Revista CollBusinessNews Edição Set/2017.

Quem vive o dia-a-dia do Crédito e da Cobrança sabe que mais do que nunca se buscam instrumentos alternativos de avaliação de crédito por conta de fatores como mudança acelerada no perfil psicossocial dos brasileiros, a ascensão das classes emergentes e mesmo o aprendizado dos indivíduos, de quais os tipos de informação declarada são computados positivamente à concessão do crédito almejado, no momento de sua aplicação, novas abordagens são requeridas para aumentar o poder de inferência das instituições que concedem empréstimos e serviços financeiros. Cabe lembrar o aspecto da assimetria de informações entre o indivíduo que solicita um empréstimo (que tem toda a informação sobre seu histórico e intenções) e a organização emissora (que tem parte da informação sobre o histórico e intenções do proponente).

O contexto apresentado evidencia a necessidade de aprimoramento do instrumental de avaliação de risco para ampliar a eficiência empresarial dos sistemas financeiros e, em casos mais extremos, viabilizar econômica e financeiramente a atividade de concessão de crédito, melhor ilustrado pela tabela 1.

Análise de Crédito Situação Atual Em Construção
Uso de dados de Redes Sociais Esparso, as consultas e capturas de dados são manuais Intensivo, as consultas e capturas de dados são automatizadas
Utilização de informações comportamentais aliadas às cadastrais Parcial via consulta a birôs negativos de crédito (dados sobre restrições), se intensificando à medida que dissemine a utilização de birô positivo (dados sobre endividamento e desempenho de crédito) Pleno, com o uso de dados de birôs negativos e positivos de crédito aliados às informações de redes sociais, seja na elaboração dos modelos preditivos ou em matrizes n-dimensionais de decisão
Efetividade da avaliação de risco Parcial, dada a queda de desempenho dos modelos de discriminação ao longo do tempo, agravada quando ocorre mudança apreciável do perfil da população de proponentes de crédito

Crescente (por expectativa), com a incorporação de dados comportamentais recentes e fidedignos aos modelos de discriminação, tornando praticamente irrelevante o eventual efeito negativo de mudanças no perfil da população de aspirantes a crédito

Tabela 1: Ilustração do impacto almejado na introdução de dados de redes sociais na avaliação de risco de crédito

Fonte: Elaboração do autor

As redes sociais sempre existiram na sociedade humana, em associações, clubes, irmandades e escolas, entre outros. Com a difusão e a popularização da web, inegavelmente estas tem ocupado espaço crescente na sociedade moderna. As pessoas expressam publicamente seus hábitos, opiniões, diálogos com indivíduos conhecidos ou não e aspectos pessoais, como fotos, endereços eletrônicos de sua preferência, entre outros. Este conteúdo informacional, entretanto, ainda está subaproveitado pelas instituições concessoras de crédito. Há iniciativas esparsas na área de cobrança de dívidas, investigação de fraudes e na análise de proponentes de alta renda, mas nenhuma das iniciativas, pelo menos as divulgadas na mídia, revelam um aproveitamento amplo e sistemático deste arsenal de informações. A análise de redes sociais (ARS), formalizada inicialmente por John Scott no início dos anos 2.000, tem evoluído de forma acelerada em escopo e difusão, permitindo que aspectos relevantes das relações sociais possam ser capturadas, processadas e aproveitadas para apoio a decisões das organizações.

Saindo do conceitual e partindo para o cotidiano, suponha que você deseja localizar um primo ou prima o (a) qual perdeu contato há muito tempo.

Naturalmente ao menos se pensará em consultar algum mecanismo de busca, ou mesmo usar a ferramenta “localizar” na(s) rede(s) social(is) preferida(s). Há um artigo que mostra que nos EUA com apenas cinco níveis é possível enviar uma mensagem ao presidente deste país. Provavelmente “Mary” conheça alguém que conhece um vereador. Este provavelmente conheça um deputado, que por sua vez conheça algum secretário de estado: finalmente o recado chega à maior autoridade do país – neste caso, em apenas três etapas.

Sendo assim, seja manualmente via consulta aos instrumentos do “varejo” da web ou no atacado, via consulta massiva, os dados presentes em redes sociais podem ser a diferença entre empresas viáveis e arrojadas e as que desaparecerão por não atingirem os propósitos pelas quais surgiram. Assim, tratemos de aprender mais com os mais jovens que nós, que navegam com maestria pelos oceanos das redes sociais !

 

2017-12-14T10:26:43-03:0007/10/2017|Crédito&Cobrança|2 Comentários
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