Funcionários de call centers no Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Goiânia protestaram nesta semana, demandando medidas das empresas para evitar a contaminação pelo coronavírus.

Em São Paulo, segundo relata o UOL, o protesto foi na frente de um dos principais call centers do país, com 37 mil empregados.

Os protestos em Goiânia e Salvador foram cobertos pelo G1, que não chegou a informar os nomes da empresas na frente da quais teriam ocorrido as manifestações.

Segundo o relato do G1 e do UOL, os funcionários reclamam de falta de álcool em gel, além de falta de higienização dos headsets, equipamento telefônico com microfone embutido que é compartilhado pelos funcionários ao longo dos diferentes turnos, e das posições de atendimento, conhecidas no jargão do setor como PAs.

No Rio de Janeiro, aconteceram protestos na qual se menciona “higienização inadequada dos ambientes”.

Também no Rio, teriam havido protestos  sobre os quais não há maiores informações, apenas um vídeo postado por militantes da Unidade Popular, um partido radical de esquerda, no qual pessoas bloqueiam o trânsito gritando slogans sobre melhores condições de trabalho.

Os protestos aconteceram dias depois da Associação Brasileira de Telesserviços (ABT), que representa o setor de contact center no Brasil como um todo, ter divulgado uma nota na terça-feira, 17, com as medidas tomadas pelas suas 17 associadas.

A nota em medidas incluindo realização de trabalho remoto ou férias pelos trabalhadores com sessenta anos ou mais, com doenças cardíacas, diabete ou outras doenças graves, ou para atividades nas quais isso seria “possível do ponto de vista técnico”.

Fora desse grupo, que provavelmente não é muito grande em um setor com uma mão de obra jovem, as providências se dariam no local de trabalho, incluindo intensificação da higienização dos ambientes comuns e postos de trabalho individuais; fornecimento de kit individual de higienização e monitoramento dos profissionais.

Os protestos aconteceram na frente de pelo menos duas empresas filiadas à ABT, o que parece indicar que as medidas não estão sendo tomadas em um ritmo ou intensidade suficientes para tranquilizar os funcionários.

O problema pode ser muito mais extenso. De acordo com a ABT, os associados da entidade empregam 380 mil funcionários.

O setor de call center como um todo, no entanto, é muito mais fragmentado, e, de acordo com estimativas de outras entidades setoriais, teria como 1,6 milhão de funcionários no país.

As empresas de call center devem ter um grande aumento da carga de trabalho nos próximos dias, na medida em que medidas de quarentena comecem a fechar o atendimento presencial em uma série de setores e a população.

Isso deve levar ao aumento do número de turnos e na ocupação de posições ociosas dentro dos call centers, estruturas refrigeradas nas quais os funcionários sentam lado a lado em centenas.

A migração de funcionários para home office para além dos perfis de risco parece pouco provável, porque envolveria projetos de tecnologia que não poderiam acontecer em tempo viável – mesmo empresas de TI de grande porte no país tem dificuldade em transferir os seus colaboradores para home office.

Apesar das dificuldades, existem possibilidades nesse sentido. Em nota enviada ao UOL, uma das empresas alvos de protestos afirmou que já implementou um piloto de home office para o atendimento, que seguirá gradativamente.

Com o número de casos de coronavírus no país prestes a ter um aumento exponencial nos próximos dias, a situação nos call centers pode se deteriorar.

A preocupação tem precedentes. Na Coréia do Sul, um país que é apontado como um sucesso na gestão da crise do coronavírus, as autoridades relataram um novo pico de casos nessa semana.

Ao todo, 242 novos contágios foram reportados pelo país asiático, 90 deles oriundos de apenas um call center, onde a doença eclodiu esta semana.

Todos os 200 funcionários foram testados e a expectativa é que o número de infectados aumente.

Fonte: por Maurício Renner, para site Baguete Diário, em 20.03.2020.